Ao longo do meu percurso, e também através da colaboração com o departamento jurídico com quem trabalho em processos de sucessão, tenho visto de perto um padrão que se repete.
Famílias que adiam qualquer conversa sobre o que vai acontecer aos imóveis quando um dos proprietários falta, até que essa conversa deixa de ser uma escolha e passa a ser uma urgência.
E muitas vezes essa urgência chega exatamente no pior momento possível.
Quando a família ainda está a lidar com o luto.
Compreendo perfeitamente porque é que isto acontece.
Falar sobre herança, enquanto todos estão vivos e de boa saúde, pode parecer desconfortável. Para algumas pessoas, quase parece chamar um problema que ainda não existe.
Mas evitar a conversa não evita o problema.
Apenas o adia.
Quando ninguém decidiu antes, alguém terá de decidir depois
É aqui que começam muitas das dificuldades.
Um imóvel pode ter vários herdeiros.
Uns querem vender.
Outros querem manter.
Alguém quer arrendar.
Outro prefere esperar.
E, entretanto, há despesas, impostos, manutenção e decisões práticas que não desaparecem só porque a família ainda não chegou a um acordo.
Quanto menos preparada estiver a situação, maior a probabilidade de tudo acontecer sob pressão.
A documentação é muitas vezes onde surgem as primeiras surpresas
Um dos problemas mais comuns que encontro é a diferença entre aquilo que existe na realidade e aquilo que está documentado.
Uma ampliação antiga.
Um anexo.
Uma divisão que nunca ficou regularizada.
Registos que não foram atualizados.
Situações de compropriedade que vêm de gerações anteriores e que ninguém sabe explicar com clareza.
Enquanto o imóvel permanece na família, tudo isto pode passar despercebido durante anos.
O problema aparece quando é preciso fazer alguma coisa.
Vender.
Arrendar.
Partilhar.
Financiar.
Ou simplesmente perceber quem pode decidir o quê.
Quando estas questões só são descobertas no momento da sucessão, deixam de ser assuntos para resolver com calma e passam a ser assuntos para resolver depressa.
Planear não significa decidir tudo hoje
Quando falo deste tema com famílias, não estou a sugerir que alguém tenha de decidir imediatamente quem fica com cada imóvel.
Nem que exista uma única solução correta.
O que me parece sensato é outra coisa.
Perceber se a documentação está em ordem.
Saber exatamente que imóveis existem e em que situação estão.
Conversar sobre as intenções dos proprietários.
E, quando necessário, procurar aconselhamento jurídico para perceber quais são as opções disponíveis.
Às vezes, só isto já evita muitos problemas futuros.
Há decisões que são muito mais fáceis quando ainda há tempo
Uma coisa é uma família sentar-se à mesa e falar sobre património sem qualquer urgência.
Outra é ter essa mesma conversa quando já existe um falecimento, vários herdeiros, documentos por reunir e decisões que não podem ficar indefinidamente adiadas.
O conteúdo da conversa pode ser exatamente o mesmo.
Mas o contexto muda tudo.
E, na minha experiência, quanto mais claro estiver aquilo que existe, quem é proprietário e que documentação acompanha cada imóvel, menos espaço há para dúvidas desnecessárias.
Talvez eu também veja este assunto assim por experiência pessoal
A minha mãe, em determinada altura, decidiu organizar em vida a divisão das pequenas terras que tinha pelos filhos.
Tratou da documentação e deixou tudo claro enquanto ainda podia decidir com calma.
Na altura, provavelmente nenhum de nós pensou muito sobre isso.
Hoje percebo melhor o valor dessa decisão.
Não foi apenas uma questão de património.
Foi evitar que, mais tarde, tivéssemos de tomar decisões sobre bens familiares num momento em que já estaríamos a lidar com outras emoções.
E talvez seja por isso que acredito tanto nisto:
O objetivo não é eliminar todas as dificuldades
Mesmo com planeamento, uma sucessão pode ser complexa.
As famílias mudam.
As circunstâncias mudam.
Os imóveis mudam.
E nem sempre todos os herdeiros vão querer a mesma coisa.
Mas há uma diferença enorme entre lidar com uma situação complexa que está minimamente organizada e começar do zero sem saber sequer se os documentos correspondem à realidade.
O que eu faria antes de ser necessário
Começaria por algo muito simples.
Confirmaria a documentação de cada imóvel.
Perceberia se os registos estão atualizados.
Verificaria se existem obras ou alterações que nunca foram regularizadas.
Organizaria os documentos num local acessível.
E teria uma conversa familiar, por mais desconfortável que pareça.
Depois, se existirem dúvidas sobre a melhor forma de organizar o património, procuraria aconselhamento jurídico adequado.
Não é uma conversa romântica.
E não pretendo torná-la assim.
Mas pode ser uma das formas mais concretas de proteger quem se ama.
Não através de grandes gestos.
Mas evitando que, no momento mais difícil, alguém tenha ainda de descobrir sozinho aquilo que podia ter ficado preparado.
Tem imóveis na família e não sabe se a documentação está preparada?
Posso ajudá-lo a fazer uma primeira leitura da situação do imóvel e, quando necessário, articular o processo com apoio jurídico para que saiba o que deve ser verificado com antecedência.
Falar comigo sobre um imóvel