OPINIÃO & MERCADO · COMPRA DE CASA

“Não percebo como é que as pessoas conseguem comprar casa.”

As casas continuam a vender-se. Mas isso não significa que estejam acessíveis — nem que todos os compradores partam do mesmo ponto.

Ontem, numa conversa com um cliente, ouvi uma frase que ficou comigo:

“Eu não percebo como é que as pessoas conseguem comprar uma casa.”

E percebi exatamente o que ele queria dizer.

Porque esta não é uma dúvida teórica.

É uma pergunta que aparece cada vez mais nas conversas que tenho com compradores.

As pessoas fazem contas.

Olham para os salários.

Olham para os preços.

Olham para a prestação.

E há momentos em que, simplesmente, não conseguem perceber como é que os números fecham.

Depois vi os dados divulgados esta semana e a frase voltou-me à cabeça.

Em dez anos, os preços das casas em Portugal subiram cerca de 182%.

Os salários, cerca de 48%.

Só este contraste já explica muita coisa.

Não explica tudo.

Mas explica porque é que hoje há pessoas a ganhar mais do que ganhavam há alguns anos e, mesmo assim, sentem que têm menos capacidade para comprar casa.

Então quem está a comprar?

Esta é a pergunta que interessa.

Porque casas continuam a vender-se.

Todos os dias.

E isso pode dar a sensação de que, afinal, existe dinheiro para tudo.

Mas quando acompanhamos compradores percebemos que a realidade é muito mais diversa.

Nem toda a gente chega à compra da mesma forma.

Há quem já tenha uma casa e a venda para comprar outra.

Há quem tenha poupanças acumuladas durante anos.

Há quem tenha ajuda da família.

Há casais com dois bons rendimentos.

Há compradores estrangeiros com outra capacidade financeira.

Há quem tenha recebido uma herança.

E há também muita gente que simplesmente vai ajustando aquilo que procura até conseguir encaixar nos números.

Isto eu vejo constantemente.

A pessoa começa à procura de uma moradia.

Depois percebe que o orçamento permite um apartamento.

Queria três quartos.

Passa a procurar dois.

Queria determinada zona.

Começa a alargar o raio.

E aquilo que inicialmente parecia uma escolha passa, muitas vezes, a ser uma sucessão de cedências.

É aqui que comprar a primeira casa se torna particularmente difícil

Há uma diferença enorme entre comprar a primeira casa e vender uma para comprar outra.

Quem já tem património pode beneficiar da valorização que ocorreu nos últimos anos.

Se comprou uma casa há dez ou quinze anos e a vende agora, pode levar para a compra seguinte uma parte muito significativa do valor necessário.

Quem começa hoje não tem essa vantagem.

Tem o salário.

As poupanças que conseguiu fazer.

E o crédito que o banco está disposto a conceder.

São pontos de partida completamente diferentes.

Às vezes duas pessoas estão a visitar exatamente a mesma casa, pelo mesmo preço, e têm capacidades financeiras que não se podem sequer comparar.

E há outra realidade que nem sempre se diz

Há pessoas que conseguem comprar casa, sim.

Mas conseguem-no com um esforço muito maior.

Com créditos longos.

Com menos margem no orçamento mensal.

Com ajuda dos pais.

Adiando outros projetos.

Ou aceitando viver longe do local onde trabalham.

Isso também é “conseguir comprar”.

Mas não significa necessariamente que a casa esteja acessível.

E acho que esta distinção é importante.

O mercado não precisa que toda a gente consiga comprar

Talvez esta seja a parte menos intuitiva.

Para os preços se manterem elevados, não é necessário que a maioria das famílias consiga comprar.

É suficiente haver compradores para os imóveis que estão disponíveis.

Pode haver muita gente excluída do mercado e, ao mesmo tempo, continuar a haver procura suficiente para os preços não descerem.

É por isso que ouvimos duas frases aparentemente contraditórias:

“As casas continuam a vender.”

e

“Eu não consigo perceber como alguém consegue pagar estes preços.”

As duas podem ser verdade.

E isto é algo que sinto cada vez mais nas conversas com clientes

Nem sempre o problema é não haver capacidade nenhuma para comprar.

Muitas vezes existe capacidade.

Só já não chega para aquilo que a pessoa imaginava.

E esse talvez seja um dos efeitos mais silenciosos desta subida dos preços.

Não é apenas haver pessoas que deixam de comprar.

É haver pessoas que continuam a comprar, mas cada vez mais longe da casa que realmente queriam.

Por isso, quando vi os números, não pensei apenas em percentagens

Pensei naquela conversa.

E em tantas outras parecidas.

Porque dizer que as casas subiram 182% e os salários 48% pode parecer apenas estatística.

Mas depois essa diferença aparece de formas muito concretas.

Na pessoa que deixa Faro e começa a procurar mais longe.

No casal que troca o T3 pelo T2.

Na família que precisa de ajuda dos pais para a entrada.

Na pessoa que decide esperar mais um ano.

Ou naquela que acaba por concluir que, para já, não consegue comprar.

É aí que os números deixam de ser números.

E talvez a frase do meu cliente tenha uma resposta simples

“Como é que as pessoas conseguem comprar casa?”

De muitas formas.

Com salários.

Com crédito.

Com património.

Com ajuda.

Com cedências.

E, às vezes, com um esforço que há poucos anos não seria necessário.

Talvez seja: o que é que cada pessoa tem de abdicar para conseguir comprar hoje?

Essa, para mim, diz muito mais sobre o mercado do que qualquer média nacional.

Está a tentar perceber até onde faz sentido ir na compra de uma casa?

Se quiser, posso ajudá-lo a olhar para o mercado com os seus números reais: orçamento, crédito, zonas possíveis e alternativas que façam sentido sem transformar a compra num peso difícil de suportar.

Falar comigo sobre a compra

Fontes

Expresso — análise sobre a evolução dos preços da habitação e dos salários em Portugal.

idealista/news — “Preço das casas em Portugal cresce o triplo dos salários num ano”, setembro de 2026.

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OPINION & MARKET · BUYING A HOME

“I don’t understand how people can afford to buy a home.”

Homes are still selling. But that does not mean they are affordable — or that every buyer starts from the same position.

Yesterday, during a conversation with a client, I heard a sentence that stayed with me:

“I don’t understand how people can afford to buy a home.”

I knew exactly what he meant.

This is not a theoretical question. It is something I hear increasingly often from buyers.

People look at salaries, asking prices and monthly repayments and sometimes simply cannot see how the numbers add up.

Then I saw the figures published this week and thought about that conversation again.

Over the last decade, house prices in Portugal have risen by around 182%.

Wages have risen by around 48%.

That contrast already explains a great deal.

So who is still buying?

Homes continue to sell every day, but buyers do not all arrive at the transaction from the same starting point.

Some sell an existing home first. Some have years of savings. Some receive family support. Some couples have two strong incomes. Some buyers come from abroad with different purchasing power. Some inherit capital.

And many simply keep adjusting what they want until the numbers work.

I see this constantly: a house becomes an apartment, three bedrooms become two, and the preferred location becomes a wider search area.

Buying a first home is very different from moving from one home to another

Someone who already owns property may benefit from the appreciation of recent years.

A first-time buyer does not have that advantage. They have income, savings and whatever financing the bank is willing to provide.

Two people can therefore be viewing exactly the same property at the same price and have completely different purchasing power.

There is another reality we do not always talk about

Some people can still buy, but only with much greater effort: longer mortgages, less room in the monthly budget, family help, postponed plans or living farther from work.

That is still “being able to buy”. But it does not necessarily mean housing is affordable.

The market does not require everyone to be able to buy

Prices do not require the majority of households to be able to buy. They only require enough buyers for the homes available.

So both of these statements can be true:

“Homes are still selling.”

and

“I cannot understand how anyone can afford these prices.”

This is something I increasingly see in conversations with clients

Often the issue is not that someone has no buying power at all.

It is that their buying power no longer reaches the home they originally imagined.

When I saw the numbers, I did not think only about percentages

I thought about that conversation, and many others like it.

The gap appears in very practical ways: in the buyer who starts looking farther from Faro, the couple who moves from a T3 to a T2, the family that needs help with the deposit, or the person who decides to wait another year.

Perhaps my client's question has a simple answer

“How do people manage to buy a home?”

In many different ways: with income, credit, existing wealth, help and compromises.

Perhaps the more useful question is not only who can still buy, but what each person has to give up in order to buy today.

Trying to understand how far it makes sense to go when buying a home?

I can help you look at the market using your real numbers: budget, financing, possible areas and alternatives that make sense without turning the purchase into an unsustainable burden.

Talk to me about buying

Sources

Expresso — analysis of the evolution of house prices and wages in Portugal.

idealista/news — September 2026 analysis of the recent and ten-year evolution of house prices and wages in Portugal.

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