OPINIÃO & MERCADO · HABITAÇÃO

O Algarve continua entre as regiões onde a habitação mais preocupa — e as respostas ainda parecem chegar devagar

Há cada vez mais medidas, reformas e novos instrumentos. Mas, para quem procura casa, a pergunta continua simples: existe mais oferta a preços que as pessoas conseguem pagar?

Há números que dizem mais sobre um mercado do que o preço por metro quadrado.

Um deles é saber até que ponto a habitação passou a ocupar espaço na cabeça de quem vive numa determinada região.

Num Eurobarómetro divulgado em 2024, 48% dos residentes do Algarve apontavam a habitação como uma das principais preocupações locais, colocando a região acima da média nacional.

Esse dado não é novo, por isso eu não o apresentaria como fotografia de setembro de 2026.

Mas, olhando para aquilo que aconteceu entretanto com preços, rendas, licenciamento e acesso ao crédito, também não me parece que tenha perdido relevância.

E talvez seja precisamente isso que torna a discussão europeia destas últimas semanas tão interessante.

Afinal, o que é a nova Affordable Housing Act europeia?

Apesar do nome, não estamos ainda perante uma lei europeia aprovada e em vigor.

A Comissão Europeia apresentou, a 9 de setembro de 2026, uma proposta de regulamento, acompanhada por uma recomendação aos Estados-Membros e às autoridades locais.

O processo legislativo europeu continua em curso.

O objetivo é criar regras comuns para identificar aquilo a que Bruxelas chama “zonas sob pressão habitacional” e definir em que condições as autoridades podem adotar medidas que protejam a disponibilidade e a acessibilidade da habitação.

O que significa “zona sob pressão habitacional”?

Não significa simplesmente uma zona onde as casas são caras.

A proposta europeia olha para vários elementos.

Um dos critérios é a relação entre o preço das casas e o rendimento disponível das famílias.

Um dos limiares previstos corresponde a cerca de oito anos de rendimento disponível por pessoa para comprar uma habitação média, combinado com a evolução desse rácio ao longo do tempo e outros indicadores de população, oferta e procura.

Quando esse rácio atinge dez anos, a proposta dispensa uma das condições de agravamento histórico.

Quanto mais os preços das casas se afastam daquilo que as famílias locais conseguem ganhar, maior é a probabilidade de existir pressão habitacional.

E esta distinção é importante.

Porque “mercado forte” e “mercado saudável para quem vive nele” não são necessariamente a mesma coisa.

E onde entra o Alojamento Local?

A proposta europeia não diz simplesmente que os países devem acabar com o Alojamento Local.

O que estabelece é um quadro para que, em áreas sob pressão, as autoridades possam justificar medidas sobre determinados usos não permanentes da habitação.

Essas medidas têm de ser baseadas em dados, necessárias, proporcionais e dirigidas ao problema identificado.

Não basta dizer “há demasiado AL”. É preciso demonstrar por que razão aquele uso está a contribuir materialmente para o problema naquela zona.

O que significa “proporcionalidade”?

É um conceito jurídico importante, mas a ideia é simples.

Uma medida não deve ir além do necessário para resolver o problema que foi identificado.

Se uma restrição mais limitada for suficiente, não faz sentido aplicar uma restrição mais pesada.

E a autoridade tem de conseguir justificar essa escolha.

E Portugal está alinhado com Bruxelas?

O Governo tem defendido que várias medidas adotadas nos últimos anos já anteciparam parte daquilo que Bruxelas está agora a propor.

Há pontos de aproximação.

Mas a comparação não é linear.

No Alojamento Local, por exemplo, Portugal eliminou em 2024 a antiga regra geral de caducidade dos registos ao fim de cinco anos.

Ao mesmo tempo, os municípios mantêm poderes para criar áreas de contenção e adotar restrições em determinadas circunstâncias.

Já a proposta europeia insiste num quadro de avaliação, justificação e revisão das medidas em zonas sob pressão.

Por isso, eu não diria que Portugal está simplesmente “contra” ou “a favor” de Bruxelas.

Diria antes que há pontos de convergência e outros em que os modelos não coincidem totalmente.

A Lei dos Solos também mostra como uma medida pode existir sem produzir ainda escala

Outro exemplo é a chamada Lei dos Solos.

As alterações ao regime de reclassificação de solo entraram em vigor no início de 2025 com o objetivo de facilitar, em certas condições, a passagem de solo rústico para urbano e criar mais capacidade para construção.

Até ao final de julho de 2026 tinham sido identificados 27 procedimentos de reclassificação em todo o país, dos quais 21 concluídos e seis ainda em curso.

Mas há uma nuance importante: o Governo não detalhou quantos desses procedimentos se destinavam efetivamente a habitação.

Por isso, o número é pequeno, mas eu teria cuidado em dizer que prova que a lei “falhou”.

Ter um novo instrumento legal não significa que ele passe imediatamente a produzir habitação em escala.

O que significa “reclassificação de solo”?

Em termos simples, significa alterar a classificação urbanística de um terreno.

Por exemplo, permitir que um solo até então classificado como rústico possa, em determinadas condições e através de um procedimento próprio, passar a ter capacidade para usos urbanos.

Isso não transforma automaticamente o terreno numa casa pronta.

Depois da reclassificação continuam a existir planeamento, projeto, financiamento, licenciamento, construção e todos os restantes passos.

E temos exatamente o mesmo problema com o licenciamento

Já escrevi sobre isto recentemente.

No segundo trimestre de 2026, Portugal licenciou mais fogos em construção nova.

O Algarve fez o percurso oposto: os fogos licenciados caíram mais de 50% em termos homólogos.

Por isso, quando falamos de aumentar oferta na região, não estamos a partir de uma situação de abundância.

Estamos a partir de uma região onde a nova oferta recente está a avançar mais devagar do que seria desejável.

E isto liga-se diretamente àquilo que tenho ouvido nas minhas conversas com construtores e promotores.

Não existe apenas uma demora. Existem várias.

Projeto. Aprovação. Procedimentos para iniciar obra. Construção. E, por vezes, uma nova espera quando o edifício já está fisicamente concluído.

É aqui que continuo a ter reservas sobre o novo RJUE

A reforma do RJUE, que entra em vigor a 1 de outubro, pretende simplificar procedimentos e deslocar parte do controlo para uma fase posterior.

Em teoria, isso pode acelerar processos.

Na prática, mantenho a reserva que já expliquei.

Se quem constrói sentir que uma determinada solução pode ser aceite hoje e questionada posteriormente numa fiscalização, o risco não desaparece. Muda de lugar.

E uma desconformidade discutida antes de começar uma obra é muito diferente de uma desconformidade levantada depois de o capital estar investido e o edifício concluído.

Por isso, para mim, o sucesso desta reforma não se vai medir apenas pelo número de passos eliminados.

Vai medir-se pela previsibilidade que conseguir criar.

É esta diferença entre “ter medidas” e “produzir resultados” que me preocupa

Hoje temos uma nova proposta europeia.

Uma reforma do licenciamento.

Novas regras sobre solo.

Mais poder municipal sobre alguns usos da habitação.

Programas públicos. Incentivos. E sucessivas alterações legislativas.

Mas a pergunta que interessa a quem procura uma casa é muito mais simples:

Há mais casas disponíveis a preços que consigo pagar?

E é aqui que a resposta continua difícil.

Para proprietários com Alojamento Local

Eu não partiria do princípio de que as regras atuais são permanentes.

Mas também não diria que Bruxelas vai obrigar Portugal a voltar a registos de cinco anos.

Isso não está decidido.

O que a proposta europeia faz é criar um enquadramento mais exigente para justificar, limitar e rever medidas sobre usos não permanentes da habitação em zonas sob pressão.

Portanto, quem tem AL deve acompanhar sobretudo duas coisas:

as decisões do seu município

e

a evolução do regulamento europeu.

Para quem compra, eu não esperaria uma descida rápida de preços por causa destas reformas

Nenhuma destas medidas cria casas da noite para o dia.

Mesmo que o licenciamento acelere.

Mesmo que mais solo fique disponível.

Mesmo que determinados imóveis regressem ao mercado residencial.

A oferta demora tempo a reagir.

E isso é particularmente importante numa região onde a construção recente já está aquém da média nacional.

E há uma ideia que não devíamos perder no meio dos recordes de preço

O Algarve continua a ser uma região procurada.

Continua a atrair investimento.

Continua a ter um mercado imobiliário muito valorizado.

Tudo isso é verdade.

Mas é possível ter um mercado economicamente forte e, simultaneamente, uma população local com enorme dificuldade de acesso à habitação.

Uma coisa não invalida a outra.

Talvez seja precisamente esse o ponto mais importante deste artigo.

Porque quando quase metade dos residentes de uma região identifica a habitação como uma preocupação central — mesmo num inquérito que já tem alguns anos — eu não acho que devamos olhar apenas para os recordes do mercado.

Devemos perguntar também:

Para quem é que este mercado está realmente a funcionar?

E, sobretudo:

Quanto tempo vão demorar as respostas que já existem no papel a transformar-se em casas reais?

Quer perceber como estas mudanças podem afetar uma decisão imobiliária concreta?

Posso ajudá-lo a analisar o contexto de mercado e as implicações práticas para compra, venda ou investimento, sempre distinguindo o que já está em vigor daquilo que ainda está em proposta.

Falar comigo

Fontes

Comissão Europeia — Affordable Housing Act: proposta de regulamento e recomendação apresentadas em 9 de setembro de 2026.

EUR-Lex — COM(2026) 599 final, proposta de regulamento sobre acessibilidade e disponibilidade da habitação.

ECO — “Lei dos solos só gerou 27 pedidos para reclassificação de rústico em urbano”, 18 de agosto de 2026.

idealista/news — dados do INE sobre edifícios e fogos licenciados e concluídos no 2.º trimestre de 2026.

Eurobarómetro / Observatório das Desigualdades — perceções sobre habitação e custo de vida, 2024.

Leituras relacionadas

Portugal licencia mais casas novas — mas no Algarve os números contam uma história muito diferente

Bruxelas não vai banir o alojamento local — mas quer definir quando e como pode ser restringido

Conhecer todos os imóveis disponíveis →

OPINION & MARKET · HOUSING

The Algarve remains one of the regions where housing causes the most concern — and the responses still seem slow to arrive

There are more measures, reforms and new tools than ever. But for someone looking for a home, the question remains simple: is there more supply at prices people can actually afford?

Some numbers say more about a housing market than the price per square metre.

One of them is how much housing has become a day-to-day concern for the people who live in a region.

In a Eurobarometer published in 2024, 48% of Algarve residents identified housing as one of the main local concerns, placing the region above the national average.

That figure is not new, so I would not present it as a snapshot of September 2026.

But given what has happened since then with prices, rents, planning approvals and access to credit, it does not feel irrelevant either.

What exactly is the EU Affordable Housing Act?

Despite the name, this is not yet an EU law already in force.

On 9 September 2026, the European Commission presented a proposal for a regulation, together with a Recommendation for Member States and local authorities.

The legislative process is still ongoing.

The aim is to create a common framework for identifying what Brussels calls “areas under housing stress” and for assessing measures intended to protect housing affordability and availability.

What does “area under housing stress” mean?

It does not simply mean an area where homes are expensive.

One threshold corresponds to around eight years of disposable income per person to purchase an average dwelling, combined with the evolution of that ratio and other indicators related to population, supply and demand.

The further house prices move away from what local households earn, the greater the likelihood of housing stress.

Where does short-term rental fit into this?

The EU proposal does not simply tell countries to abolish short-term rentals.

It creates a framework under which authorities in stressed areas may justify measures affecting certain non-primary uses of housing.

Those measures must be evidence-based, necessary, proportionate and targeted at the identified problem.

What does “proportionality” mean?

A restriction should not go further than necessary to address the identified problem.

If a more limited measure is sufficient, a heavier restriction should not be used without justification.

Is Portugal aligned with Brussels?

The Portuguese Government argues that several national measures already anticipated parts of what the Commission is now proposing.

There are areas of convergence, but the comparison is not straightforward.

Portugal removed the previous general five-year expiry rule for short-term rental registrations in 2024, while municipalities still retain powers to create containment areas and impose restrictions in specific circumstances.

The EU proposal, meanwhile, stresses assessment, justification and review of measures in areas under housing stress.

The land law also shows how a new legal tool can exist without producing scale immediately

Changes to Portugal's land reclassification rules entered into force in early 2025.

By the end of July 2026, 27 reclassification procedures had been identified nationwide, of which 21 were concluded and six remained ongoing.

The Government did not specify how many were actually intended for housing.

Having a new legal mechanism does not mean it immediately produces housing at scale.

What does “land reclassification” mean?

In simple terms, it means changing the planning classification of land.

That does not automatically turn land into completed homes. Planning, design, finance, licensing and construction still follow.

We see exactly the same problem with planning approvals

In the second quarter of 2026, Portugal licensed more dwellings in new residential construction.

The Algarve moved the other way, with licensed dwellings down by more than 50% year on year.

This connects directly with what I hear in conversations with builders and developers: there is rarely just one delay.

This is where I still have reservations about the revised RJUE

The new planning and building framework takes effect on 1 October and aims to simplify procedures, including by shifting some control to a later stage.

In theory, that may speed things up.

In practice, if a developer feels that something accepted today may later be questioned during inspection, the risk has not disappeared. It has moved.

For me, the success of the reform will therefore be measured not only by how many steps disappear, but by how much predictability it creates.

The difference between “having measures” and “producing results” is what concerns me

Today we have a new European proposal, licensing reform, new land rules, greater municipal powers over certain housing uses, public programmes, incentives and repeated legislative changes.

Are there more homes available at prices I can actually afford?

For short-term rental owners

I would not assume today's rules are permanent.

But I would not claim that Brussels is going to force Portugal back to five-year registrations either.

That has not been decided.

Owners should mainly follow decisions by their municipality and the evolution of the EU regulation.

For buyers, I would not expect these reforms to produce a rapid fall in prices

None of these measures creates homes overnight.

Supply takes time to respond.

And there is one idea we should not lose amid record prices

The Algarve remains highly sought after and continues to attract investment.

All of that can be true while local households simultaneously struggle to access housing.

Who is this market actually working for?

And above all:

How long will the responses already written into policy take to become real homes?

Want to understand how these changes may affect a specific property decision?

I can help you assess the market context and the practical implications for buying, selling or investing, always distinguishing what is already in force from what is still only proposed.

Talk to me

Sources

European Commission — Affordable Housing Act: proposed Regulation and Commission Recommendation, 9 September 2026.

EUR-Lex — COM(2026) 599 final, proposal for a regulation on housing affordability and availability.

ECO — article on 27 land reclassification procedures identified by July 2026.

idealista/news — Statistics Portugal data on licensed and completed dwellings in Q2 2026.

Eurobarometer / Observatório das Desigualdades — housing and cost-of-living concerns, 2024.

Related reading

Portugal is licensing more new homes — but the Algarve tells a very different story

Brussels will not ban short-term rentals — but it wants to define when and how they can be restricted

View all available properties →