Esta semana, a Comissão Europeia apresentou uma proposta que, mal se conheceram os primeiros detalhes, foi rapidamente resumida por muita gente como “Bruxelas vai proibir o Airbnb”.
Não é isso que está em cima da mesa.
E vale a pena perceber exatamente o que muda, porque para quem tem — ou pensa vir a ter — alojamento local no Algarve, os detalhes interessam muito mais do que o título da notícia.
Bruxelas não propõe uma proibição. Propõe uma régua.
A ideia central é esta: as autoridades locais poderão vir a adotar restrições ao alojamento de curta duração quando consigam demonstrar, com dados objetivos, que determinada zona está sob pressão habitacional relevante e que o alojamento local contribuiu de forma significativa para essa pressão.
A proposta introduz critérios estatísticos para essa análise.
Um dos critérios é comparar quanto custa comprar uma casa com aquilo que as famílias dessa zona ganham.
Por exemplo: se o preço médio de uma casa corresponder a cerca de 8 anos de rendimento anual de uma família, essa zona pode já ser considerada sob forte pressão habitacional — sobretudo se essa relação tiver piorado ao longo dos últimos anos.
Se chegar a 10 anos de rendimento, a pressão é considerada tão elevada que já não é necessário provar da mesma forma que o problema se agravou na última década.
Dito de forma simples: quanto mais distante estiver o preço das casas daquilo que as famílias locais conseguem ganhar, maior é a probabilidade de a zona ser considerada pressionada.
Isto não significa que uma casa tenha de custar exatamente oito vezes o rendimento de uma família concreta. É um indicador estatístico usado para perceber se, naquela zona, a habitação se tornou demasiado cara face aos rendimentos locais.
Mas não basta olhar para um único número.
A análise deverá considerar também fatores como população, procura, oferta habitacional e a persistência do problema.
A zona concreta passa a importar mais do que nunca
Este é, para mim, um dos aspetos mais relevantes da proposta.
A unidade de análise não tem necessariamente de ser um concelho inteiro.
Pode ser um município, uma área metropolitana, uma zona rural ou até apenas uma parte dessas áreas, desde que existam dados suficientes para justificar essa delimitação.
Isto significa que, no Algarve, deixa de fazer sentido pensar apenas em “Albufeira”, “Olhão” ou “Tavira” como blocos homogéneos.
Uma zona muito pressionada dentro de um concelho pode ter uma realidade completamente diferente de outra zona a poucos quilómetros.
E é precisamente por isso que, para quem compra com intenção de explorar em alojamento local, o risco regulatório passa a ter de ser analisado quase da mesma forma que analisamos localização, rentabilidade ou estado do imóvel.
Quem já tem alojamento local fica automaticamente protegido?
Não colocaria a questão nesses termos.
A proposta contém salvaguardas para situações já existentes e exige mecanismos de transição adequados quando uma medida venha a afetar atividades legais em curso.
Mas isso não significa que todas as licenças atuais fiquem automaticamente imunes a qualquer futura alteração.
Também existe uma regra importante para medidas ligadas à aquisição do imóvel: essas condições só poderão aplicar-se a imóveis adquiridos depois de a medida entrar em vigor.
São detalhes relevantes, mas ainda estamos perante uma proposta legislativa.
Por isso, eu evitaria duas reações extremas.
A primeira é o alarmismo: vender ou abandonar um alojamento local ativo apenas porque apareceu esta notícia.
A segunda é o excesso de confiança: assumir que uma licença atual estará sempre protegida independentemente da evolução das regras.
Neste momento, nenhuma das duas posições me parece prudente.
O alvo está mais próximo da atividade comercial em escala
A proposta europeia dá especial atenção a situações em que o alojamento de curta duração assume dimensão, frequência ou caráter comercial suficientemente relevantes para retirar habitação ao mercado residencial.
Entre os critérios que podem ser considerados estão o número de imóveis explorados pelo mesmo anfitrião e a frequência da atividade.
Há ainda uma distinção importante: quando o fundamento da restrição é a pressão habitacional, a proposta protege de forma diferente o alojamento feito na residência principal do próprio anfitrião.
Na prática, Bruxelas está a tentar distinguir entre alguém que arrenda ocasionalmente a própria casa e uma operação com várias unidades orientada de forma permanente para o mercado turístico.
O que isto significa para quem está a pensar comprar no Algarve?
Significa, acima de tudo, que a pergunta já não deve ser apenas:
“Quanto posso ganhar por ano com este alojamento local?”
Eu acrescentaria outra:
É uma pergunta simples, mas muda a análise.
Porque um investimento em alojamento local não depende apenas da ocupação, do preço médio por noite ou da distância à praia.
Depende também da estabilidade regulatória daquela zona.
E esse risco não será necessariamente igual em todo o Algarve.
Hoje, algumas zonas apresentam maior concentração turística, maior pressão sobre a habitação e maior intensidade de alojamento local do que outras.
Isso não significa que possamos prever quais câmaras irão restringir, quando o farão ou em que áreas.
Significa apenas que esse risco deve começar a fazer parte da decisão de investimento.
Não há motivo para decisões precipitadas
Outro ponto importante: esta proposta ainda não é lei definitiva.
Terá de passar pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho, e só depois existirá um texto final aplicável.
Mesmo depois disso, qualquer medida concreta dependerá da decisão da autoridade local competente e da demonstração de que estão preenchidos os critérios previstos.
Por isso, não vejo qualquer razão para entrar numa lógica de “comprar antes que feche” ou “vender antes que proíbam”.
Vejo, isso sim, uma boa razão para começar a incluir o risco regulatório local na análise de qualquer investimento em alojamento de curta duração.
Para mim, esta é a verdadeira mudança
Até agora, muitos investidores avaliavam o alojamento local sobretudo através de cinco perguntas:
- Quanto custa o imóvel?
- Quanto consigo cobrar por noite?
- Que ocupação posso esperar?
- Quais são os custos?
- Qual é a rentabilidade líquida?
A partir daqui, acrescentaria uma sexta:
Qual é o risco regulatório desta zona?
Não porque Bruxelas tenha decidido acabar com o alojamento local.
Precisamente porque não decidiu.
Decidiu antes propor uma metodologia para que futuras restrições tenham de ser justificadas com dados.
E para quem investe, isso significa que já não basta perceber o imóvel.
É preciso perceber também a zona.
Está a pensar comprar para alojamento local no Algarve?
Antes de decidir, posso ajudá-lo a analisar não apenas o imóvel e a rentabilidade esperada, mas também a localização, a procura e o risco regulatório da zona.
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