Há um número que vale a pena acompanhar neste momento.
A Euribor a 6 meses ultrapassou os 3% e chegou, a 25 de setembro, aos 3,070%.
É o nível mais alto desde setembro de 2024.
Para quem não acompanha diariamente estas taxas, a diferença entre 2,7%, 2,9% ou 3,1% pode parecer pequena.
Numa prestação de crédito à habitação, não é necessariamente assim.
O que significa, afinal, a Euribor estar acima dos 3%?
A Euribor é uma das componentes utilizadas para calcular a taxa de muitos créditos à habitação.
De forma simplificada:
Imagine um crédito com um spread de 1%.
Se a Euribor utilizada na revisão estiver perto dos 3%, a taxa do empréstimo ficará próxima dos 4%.
É esta conta — e não apenas o número que aparece nas notícias — que acaba por chegar ao orçamento familiar.
Mas a prestação não muda cada vez que a Euribor sobe num dia
Se hoje a Euribor a 6 meses estiver em 3,070%, a prestação de quem tem crédito variável não aumenta automaticamente amanhã.
Nos contratos de crédito é normalmente utilizada a média mensal da Euribor relevante e a prestação só é atualizada quando chega a data prevista para a revisão.
Por isso, existe um desfasamento.
Uma pessoa pode sentir esta subida daqui a algumas semanas. Outra apenas daqui a alguns meses.
Depende do contrato.
A pergunta mais útil não é “Quanto está a Euribor hoje?”
É:
Um exemplo ajuda a perceber melhor do que várias percentagens
Num exemplo de um empréstimo de 150.000 euros, a 30 anos, com spread de 1%, uma revisão recente associada à Euribor a 6 meses colocava a prestação em cerca de 692 euros por mês.
Na revisão anterior, estava aproximadamente 47 euros abaixo.
Ou seja: cerca de mais 47 euros por mês.
Ao fim de um ano: aproximadamente mais 570 euros.
Claro que este é apenas um exemplo. Cada crédito tem um capital em dívida, prazo, spread e data de revisão diferentes.
Porque voltou a Euribor a subir?
O Banco Central Europeu voltou a subir as taxas diretoras em setembro, depois de já as ter aumentado em junho.
A razão principal continua a ser a inflação.
Quando o mercado acredita que os juros do BCE vão permanecer elevados durante mais tempo, as Euribor tendem a refletir essa expectativa.
Mas há um detalhe importante:
O próprio BCE continua a dizer que decidirá reunião a reunião, em função dos dados económicos.
A próxima reunião de política monetária está marcada para 28 e 29 de outubro.
Por isso, não tentaria prever a Euribor
Há poucos meses, muita gente partia do princípio de que o caminho dos juros seria sempre descendente.
Hoje sabemos que essa trajetória não é linear.
A Euribor voltou a subir. Mas isso também não significa que vá continuar sempre a subir.
Por isso, para mim, a questão não é tentar adivinhar se estará em 3,2% ou 2,8% daqui a seis meses.
A questão é outra:
Para quem já tem crédito à habitação
Eu faria três coisas muito simples.
Veria no contrato qual é a Euribor associada ao crédito, quando acontece a próxima revisão e quanto ficaria a prestação com uma taxa ligeiramente superior à atual.
É preferível fazer essa conta agora do que descobrir o novo valor apenas quando chegar a comunicação do banco.
Para quem está a comprar casa
Aqui a subida da Euribor tem outro efeito.
Não aumenta apenas a prestação futura. Pode também diminuir quanto o banco está disposto a financiar.
Imagine um comprador que já estava próximo do limite da sua taxa de esforço.
Uma prestação projetada um pouco mais alta pode fazer com que o banco lhe empreste menos.
Às vezes, a consequência não é “Já não quero comprar esta casa.”
É:
E isto acontece num mercado que já está a vender menos casas
No segundo trimestre deste ano, o número de habitações vendidas no Algarve caiu 12,4% face ao mesmo período do ano anterior.
Não podemos dizer que essa queda aconteceu por causa da Euribor.
Existem muitos fatores a influenciar as transações.
Mas juros mais elevados acrescentam uma dificuldade evidente para a parte do mercado que depende de financiamento bancário.
Para quem vende, a aprovação bancária do comprador ganha ainda mais importância
Uma proposta dependente de financiamento não é necessariamente uma má proposta.
Mas significa que existe mais uma variável a controlar.
Eu procuraria saber cedo se existe pré-aprovação, qual o montante financiável, quanto capital próprio existe e se a compra depende de uma avaliação bancária muito próxima do preço acordado.
E taxa fixa, variável ou mista?
Também não acho que exista uma resposta universal.
Taxa variável pode beneficiar se os juros descerem.
Taxa fixa oferece previsibilidade.
Taxa mista combina um período inicial fixo com uma fase posterior variável.
Eu não escolheria uma opção apenas com base numa previsão sobre aquilo que o BCE poderá fazer.
Escolheria aquela que continua a ser suportável mesmo que essa previsão esteja errada.
No fundo, os 3% são apenas um número
A Euribor a 6 meses ultrapassar os 3% é relevante.
Mas o número que verdadeiramente interessa a uma família não é 3,070%.
É:
quanto pago hoje?
quanto posso pagar na próxima revisão?
e quanto consigo pagar sem transformar a casa numa preocupação mensal?
É aí que esta notícia deixa de ser uma notícia sobre taxas de juro.
E passa a ser uma decisão sobre uma casa.
Está a comprar casa com recurso a crédito?
Posso ajudá-lo a enquadrar a procura com o orçamento real e a margem de financiamento disponível, para evitar perder tempo com imóveis que deixam de fazer sentido quando entram as contas do banco.
Falar comigo sobre a compraFontes
ECO / Lusa — Euribor a 6 meses em 3,070% e Euribor a 12 meses em 3,379% em 25 de setembro de 2026.
Banco Central Europeu — decisão de política monetária de 10 de setembro de 2026 e calendário das reuniões do Conselho do BCE.
Diário de Notícias / Lusa / DECO PROteste — simulações de prestações de crédito à habitação revistas em setembro de 2026.
idealista/news — dados sobre a evolução das vendas de habitação no Algarve no 2.º trimestre de 2026.