OPINIÃO & MERCADO · CRÉDITO

O crédito ficou mais exigente desde agosto — e no Sotavento isso pode separar compradores de forma muito desigual

As novas regras de crédito não afetam todos os compradores da mesma forma. E, num mercado como o Algarve, isso pode mudar quem consegue realmente chegar a determinados imóveis.

Desde 1 de agosto, pedir crédito para comprar casa ficou um pouco mais exigente.

Não necessariamente para toda a gente da mesma forma — e é precisamente aí que, para mim, está a parte mais interessante desta mudança.

O Banco de Portugal reduziu de 50% para 45% o limite de referência do chamado DSTI: o rácio entre as prestações mensais de todos os créditos do cliente e o seu rendimento mensal líquido.

Dito de forma simples: o banco passou a ter menos margem para considerar sustentável um nível elevado de endividamento.

E não estamos a falar apenas da prestação da casa. Entram na conta os outros créditos que existam e, nos casos aplicáveis, a instituição tem ainda de considerar um cenário de esforço sobre a taxa de juro.

Ao mesmo tempo, os prazos máximos passaram a ser mais simples: até aos 35 anos podem chegar aos 40 anos; acima dos 35 anos, o máximo é 35 anos. Para quem tinha entre 31 e 35 anos, existe até uma vantagem face às regras anteriores, porque o prazo máximo sobe de 37 para 40 anos.

O LTV mantém-se, em regra, nos 90% para habitação própria e permanente e 80% para outras finalidades.

E no Algarve esta mudança não afeta todos da mesma forma

É aqui que começo a olhar para esta notícia menos como uma questão bancária e mais como uma questão imobiliária.

Imagine dois compradores interessados na mesma casa. Um compra com capitais próprios. O outro precisa de financiar uma parte significativa da aquisição.

A casa é a mesma. O preço é o mesmo. Mas aquilo que mudou em agosto afeta diretamente apenas um deles.

Quem compra sem recorrer ao crédito bancário português não vê a sua capacidade financeira limitada por estas regras. Quem depende do banco, sim.

E num mercado como o Algarve, onde coexistem compradores locais, residentes estrangeiros, investidores e pessoas com níveis de capital próprio muito diferentes, esta distinção importa.

O preço de uma casa pode ser igual para todos. O acesso a esse preço não é.

Os compradores com mais de 35 anos merecem particular atenção

Quem tem até 35 anos pode beneficiar de um prazo máximo de 40 anos. Acima dessa idade, o limite é 35.

Isto não significa, naturalmente, que todas as pessoas com mais de 35 anos tenham menor capacidade de compra. Rendimento, poupança, entrada disponível, outros créditos e perfil de risco continuam a pesar muito mais.

Mas, mantendo tudo o resto igual, um prazo mais curto tende a produzir uma prestação mensal superior. E quando o limite de esforço também é mais apertado, essa diferença ganha importância.

É por isso que acredito que alguns compradores vão descobrir que o orçamento que tinham mentalmente definido para uma casa já não corresponde necessariamente ao montante que o banco está disposto a financiar.

Julho torna esta mudança ainda mais interessante

Há um dado que ajuda a perceber o contexto. Em julho, no mês imediatamente anterior às novas regras, os novos contratos de crédito à habitação atingiram cerca de 2.345 milhões de euros — o valor mais elevado da série.

Entrámos, portanto, num enquadramento mais restritivo precisamente depois de um período de fortíssima concessão de crédito.

Ainda é cedo para afirmar qual será o impacto final das novas regras sobre a procura imobiliária. Seria precipitado dizer que o crédito vai cair de forma significativa ou que os preços serão afetados por causa delas.

Mas há uma coisa que me parece bastante plausível: alguns compradores que há poucos meses conseguiam chegar a determinado valor de aquisição poderão agora ter de rever esse orçamento.

Para quem está a vender, talvez seja altura de voltar a perguntar: quem é realmente o comprador desta casa?

Quando analisamos um imóvel para venda, falamos muito de localização, tipologia, estado, preço por metro quadrado ou imóveis concorrentes.

Mas há outra pergunta que considero cada vez mais importante: quem consegue efetivamente comprar este imóvel?

Um apartamento de 300 mil euros não compete necessariamente pelo mesmo comprador que uma moradia de 800 mil. E dentro da mesma faixa de preço também existem diferenças enormes.

Há compradores com entrada elevada. Há compradores que precisam de 90% de financiamento. Há quem tenha outro imóvel para vender. Há quem tenha crédito automóvel ou pessoal. Há compradores estrangeiros com capitais próprios. E há famílias cujo orçamento está muito próximo do limite que o banco aceita.

Quando as regras de financiamento apertam, o universo de compradores financeiramente capazes pode mudar mesmo que o preço anunciado da casa não mude.

Para um proprietário, isto é mais uma razão para não definir o preço apenas olhando para aquilo que outras casas estão a pedir. É preciso perceber também quem é o comprador provável e até onde esse comprador consegue realmente chegar.

ESTÁ A PENSAR VENDER?

O preço certo também depende de perceber quem consegue comprar.

Quando analiso uma propriedade, procuro cruzar concorrência, localização, características e perfil provável de comprador — incluindo a forma como o financiamento pode influenciar a procura.

Pedir uma análise do meu imóvel

Para quem está a comprar com crédito, eu faria uma coisa antes de começar as visitas

Pré-aprovação.

Não uma simulação rápida feita num portal. Não “o meu banco disse-me que provavelmente dá”. Uma análise suficientemente concreta para perceber qual o montante que poderá efetivamente financiar, que entrada precisa, qual a prestação num cenário realista, que impacto têm os outros créditos e quanto consegue pagar confortavelmente.

Vejo compradores apaixonarem-se por uma casa e só depois começarem verdadeiramente a fazer contas ao financiamento.

Eu preferia inverter a ordem.

Primeiro perceber o orçamento real. Depois procurar dentro dele.

Isso não torna a compra menos emocional. Torna-a apenas muito mais segura.

E para quem investe?

Aqui faria uma distinção importante. Não diria que estas regras vão necessariamente criar “melhores oportunidades” para investidores. Ainda não temos dados suficientes para afirmar isso.

Mas podem alterar a composição da procura. Se determinados compradores dependentes de financiamento perderem capacidade de aquisição, alguns segmentos poderão ter menos pressão competitiva desse grupo.

Isso pode criar mais espaço para negociação em determinados imóveis. Mas não transforma automaticamente o Sotavento num mercado barato, nem significa que os proprietários vão começar a aceitar descontos importantes.

Uma boa oportunidade continua a depender do preço de entrada, localização, procura, potencial de rendimento e qualidade do próprio imóvel.

E é precisamente aqui que continuo a achar o Sotavento interessante: não porque “vai subir” nem porque “vai ficar mais barato”, mas porque ainda existem diferenças suficientemente grandes entre localidades, segmentos e imóveis para que uma análise feita propriedade a propriedade tenha mais valor do que qualquer conclusão geral sobre o Algarve.

O crédito mudou. A casa não mudou. Mas o comprador possível pode ter mudado.

Talvez seja esta a conclusão que retiro destas novas regras.

Um imóvel que custava 350 mil euros em julho pode continuar a custar 350 mil euros em setembro.

Nada mudou na casa.

Mas algumas das pessoas que poderiam financiá-la podem já não conseguir fazê-lo exatamente nas mesmas condições.

E num mercado imobiliário, isso conta.

Porque, no fim, o valor não depende apenas daquilo que alguém gostaria de pagar. Depende também de quem consegue efetivamente comprar.

IMÓVEIS EM DESTAQUE

Três imóveis, três perfis de comprador muito diferentes

Uma forma simples de perceber como preço, entrada disponível e financiamento podem alterar completamente o universo de compradores.

Apartamento T3 com vista para o Sapal em Vila Real de Santo António
Vila Real de Santo António

T3 com vista para o Sapal

345.000 €
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Fontes consultadas

OPINION & MARKET · MORTGAGES

Mortgage credit became more demanding in August — and in the Eastern Algarve that may divide buyers very unevenly

The new mortgage rules do not affect every buyer in the same way. In a market such as the Algarve, that can change who is actually able to reach certain properties.

Since 1 August, obtaining a mortgage to buy a home has become slightly more demanding.

Not necessarily for everyone in the same way — and that is precisely what I find most interesting about this change.

Banco de Portugal reduced the reference DSTI limit from 50% to 45%. DSTI is the ratio between the monthly repayments on all of a client’s loans and their net monthly income.

Put simply: banks now have less room to consider a high level of indebtedness sustainable.

This is not only about the mortgage payment. Other existing loans also count and, where applicable, the bank must also consider an interest-rate stress scenario.

Maximum maturities have also been simplified: up to age 35, loans may run for as long as 40 years; above 35, the maximum is 35 years. For buyers aged 31 to 35, this is actually more favourable than the previous 37-year limit.

LTV limits remain, as a rule, at 90% for a main permanent residence and 80% for other purposes.

In the Algarve, the change does not affect everyone in the same way

This is where I start looking at the news less as a banking issue and more as a property-market issue.

Imagine two buyers interested in the same home. One is buying with their own funds. The other needs substantial mortgage finance.

The property is the same. The price is the same. But the August changes directly constrain only one of them.

A buyer who does not rely on Portuguese mortgage credit does not have their purchasing power limited by these rules. A buyer who depends on the bank does.

In a market such as the Algarve, where local buyers, foreign residents, investors and people with very different levels of equity compete side by side, that distinction matters.

The price of a home may be the same for everyone. Access to that price is not.

Buyers over 35 deserve particular attention

Clients aged up to 35 may benefit from a maximum 40-year term. Above that age, the limit is 35 years.

This certainly does not mean that every buyer over 35 has less purchasing power. Income, savings, available deposit, other debt and risk profile remain far more important.

But, all else being equal, a shorter term tends to result in a higher monthly payment. When the affordability limit is also tighter, that difference becomes more relevant.

This is why I believe some buyers will discover that the budget they had in mind no longer matches the amount the bank is willing to finance.

July makes the timing particularly interesting

There is one figure that helps put this in context. In July, immediately before the new rules took effect, new mortgage agreements reached approximately €2.345 billion — the highest level in the series.

In other words, the more restrictive framework arrived just after a period of exceptionally strong mortgage lending.

It is still too early to know the final impact on property demand. It would be premature to claim that mortgage lending will fall sharply or that house prices will change because of these rules.

But one outcome seems plausible: some buyers who could reach a certain purchase price a few months ago may now have to revise that budget.

For sellers, it may be time to ask again: who is the real buyer for this property?

When we analyse a property for sale, we usually discuss location, type, condition, price per square metre and competing listings.

There is another question I increasingly consider essential: who can actually buy this property?

A €300,000 apartment does not necessarily compete for the same buyer as an €800,000 villa. Even within the same price range, buyers can be very different.

Some have a large deposit. Some need 90% finance. Some need to sell another home first. Some have car or personal loans. Some foreign buyers are using substantial equity. And some households are already close to the affordability limit accepted by the bank.

When financing rules tighten, the pool of financially capable buyers may change even when the asking price does not.

For a seller, that is another reason not to set the price simply by looking at what other homes are asking. You also need to understand who the likely buyer is and how far that buyer can realistically go.

THINKING OF SELLING?

The right price also depends on understanding who can actually buy.

When I analyse a property, I look at competition, location, specific features and the likely buyer profile — including the way mortgage conditions may influence demand.

Request a property analysis

If you are buying with a mortgage, I would do one thing before starting viewings

Get a proper pre-approval.

Not a quick online simulation. Not “my bank said it should probably be fine”. A sufficiently concrete assessment to understand how much can actually be financed, what deposit is required, what the realistic monthly payment is, how other loans affect the calculation and what you can comfortably afford.

I see buyers fall in love with a property and only then begin to seriously examine the financing.

I would reverse that order.

Understand the real budget first. Then search within it.

That does not make the purchase less emotional. It simply makes it much safer.

And for investors?

I would make an important distinction here. I would not say these rules will necessarily create “better opportunities” for investors. We do not yet have enough evidence for that.

They may, however, change the composition of demand. If some mortgage-dependent buyers lose purchasing power, certain segments may face less competition from that group.

That could create more negotiating room in particular cases. But it does not automatically make the Eastern Algarve cheap, nor does it mean sellers will suddenly accept large discounts.

A sound investment still depends on entry price, location, demand, income potential and the quality of the individual property.

That is exactly why I continue to find the Eastern Algarve interesting: not because it “will rise” or “will become cheaper”, but because the differences between locations, segments and properties are still large enough for property-by-property analysis to matter more than any sweeping conclusion about the Algarve.

The mortgage rules changed. The property did not. But the possible buyer may have.

That is perhaps the clearest conclusion I take from these new rules.

A home priced at €350,000 in July may still be priced at €350,000 in September.

Nothing changed in the property.

But some of the people who could have financed it may no longer be able to do so on exactly the same terms.

And in a property market, that matters.

Because value ultimately depends not only on what someone would like to pay, but also on who can actually buy.

FEATURED PROPERTIES

Three properties, three very different buyer profiles

A simple way to see how price, available equity and mortgage requirements can completely change the pool of possible buyers.

Three-bedroom apartment overlooking the salt marsh in Vila Real de Santo António
Vila Real de Santo António

3-bedroom apartment overlooking the salt marsh

€345,000
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New three-bedroom apartment with rooftop and sea view in Montenegro
Montenegro, Faro

New 3-bedroom apartment with rooftop and sea view

€600,000
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Sources

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