OPINIÃO & MERCADO · COMPRAR

O que devia perguntar antes de comprar no Algarve — e quase ninguém pergunta

Quartos, praia, piscina e aeroporto contam. Mas algumas das perguntas mais importantes são as que só percebemos que devíamos ter feito depois de comprar.

Quem procura casa no Algarve chega normalmente com uma lista bastante clara.

Quantos quartos tem? Quanto fica da praia? Tem piscina? Quanto demora até ao aeroporto?

São perguntas perfeitamente legítimas.

Mas, pela minha experiência, raramente são estas que fazem a diferença entre comprar uma casa de que gostamos e fazer realmente uma boa compra.

Existem outras perguntas, menos interessantes à primeira vista, que podem evitar problemas bastante mais tarde.

E são precisamente essas que faço questão de colocar em cima da mesa quando acompanho um comprador.

1. O que estou a comprar corresponde realmente ao que está documentado?

Esta é, para mim, uma das primeiras perguntas.

A casa que estamos a visitar corresponde às plantas e à documentação? Aquela divisão sempre existiu? O anexo está regularizado? A piscina está contemplada? A garagem é efetivamente garagem? Houve alguma ampliação ou alteração ao imóvel?

No Algarve encontramos imóveis de muitas épocas diferentes e não é invulgar existirem alterações feitas ao longo dos anos.

Desde 2024, a autorização de utilização deixou de ser um documento cuja apresentação é obrigatória no momento da escritura.

Isso, porém, não significa que a conformidade urbanística tenha deixado de importar.

E há uma diferença importante quando existe financiamento bancário: apesar de já não ser uma exigência geral para a realização da escritura, os bancos continuam normalmente a exigir documentação suficiente para comprovar a situação urbanística do imóvel antes de conceder crédito e aceitar o imóvel como garantia.

Por isso, um imóvel que possa ser transmitido sem apresentação da licença de utilização não é necessariamente um imóvel que um banco esteja disposto a financiar sem mais verificações.

Uma alteração não regularizada pode trazer dificuldades no financiamento, custos de legalização ou limitações futuras que o comprador deve conhecer antes de assumir o compromisso.

Por isso, para mim, a pergunta não é apenas: “Tem licença de utilização?”

É: “Aquilo que estou a comprar corresponde àquilo que está legalmente documentado — e, se precisar de crédito, é financiável nestas condições?”

2. De onde vem a água?

Num apartamento no centro de Faro esta pergunta provavelmente nunca surgirá.

Numa moradia isolada ou numa propriedade rústica, pode ser uma das mais importantes.

Existe ligação à rede pública? A água vem exclusivamente de um furo? Existe também cisterna? Se existe um furo, está regularizado? Que utilização está autorizada? E sabemos se existe água suficiente para aquilo que pretendemos fazer na propriedade?

No Algarve, onde os períodos secos são longos e a disponibilidade de água é um tema cada vez mais relevante, eu não trataria isto como um detalhe.

Especialmente quando se compra uma propriedade com terreno, jardim, piscina, árvores de fruto ou intenção de exploração agrícola.

Ter um furo no terreno não é exatamente o mesmo que ter garantido o abastecimento de que vamos precisar.

3. Quanto custa realmente viver aqui?

Esta pergunta vai muito além da prestação do crédito.

Se existe condomínio: quanto é a quota? O que inclui? Existe fundo comum de reserva? Há obras importantes aprovadas? Está prevista alguma intervenção no edifício? Existem encargos extraordinários?

E vale sempre a pena perceber o estado das zonas comuns e, quando possível, consultar as últimas atas do condomínio.

Num empreendimento com piscina, jardins, elevadores, segurança ou outras infraestruturas comuns, a diferença entre dois imóveis semelhantes pode representar centenas ou milhares de euros por ano.

Por isso, o preço de compra é apenas uma parte da conta.

O custo de manter a casa também faz parte do preço.

4. Há quanto tempo está à venda — e o que aconteceu entretanto?

Gosto sempre de perceber o histórico do imóvel no mercado.

Há quanto tempo está anunciado? O preço já foi alterado? Houve propostas? E, quando essa informação está disponível e pode ser partilhada: porque decidiu o proprietário vender?

Nenhuma destas respostas significa automaticamente que exista um problema.

Uma casa pode estar vários meses à venda simplesmente porque começou com um preço demasiado elevado.

Um proprietário pode vender porque vai mudar de país, porque recebeu uma herança ou simplesmente porque quer outra casa.

Mas conhecer o contexto ajuda a perceber melhor a negociação.

Não significa descobrir “até onde o vendedor baixa”.

Significa perceber em que situação estamos a negociar.

São coisas diferentes.

5. O que é que eu não estou a ver?

Esta talvez seja a pergunta de que mais gosto.

Quando nos apaixonamos por uma casa começamos, naturalmente, a olhar para aquilo que gostamos: a vista, a luz, a cozinha, o terraço, a possibilidade de colocar ali uma mesa, uma piscina ou um sofá.

Mas uma compra também exige olhar para aquilo que é menos agradável.

Existem sinais de humidade? Como está a cobertura? Que idade têm as canalizações e a instalação elétrica? Há fissuras que mereçam avaliação? Existe ruído em determinadas horas que não estamos a ouvir durante a visita? Como ficam os acessos no verão? Que construção pode surgir naquele terreno vazio em frente?

Num apartamento, como estão as zonas comuns?

Numa moradia, como estão muros, drenagens, cobertura e exteriores?

Não significa procurar defeitos para desistir da compra.

Significa saber aquilo que estamos realmente a comprar.

E quando existe uma dúvida técnica relevante, pedir a opinião de alguém qualificado antes de avançar pode custar muito menos do que descobrir o problema depois.

Comprar bem exige alguma distância emocional

Esta talvez seja a parte mais difícil.

Há casas onde entramos e sabemos quase imediatamente: “É esta.”

E não há nada de errado nisso.

Comprar uma casa também é uma decisão emocional.

O problema começa quando a emoção substitui todas as outras perguntas.

É precisamente nessa fase que considero mais importante ter alguém ao lado que continue a perguntar: A documentação está certa? Os custos fazem sentido? Existe alguma coisa que ainda precisamos de verificar? Esta condição deve ficar prevista no contrato? Há algum risco que estamos a ignorar?

Não para tirar entusiasmo à compra.

Mas para permitir que esse entusiasmo sobreviva depois da escritura.

Porque encontrar uma casa de que gostamos é importante.

Comprar sabendo exatamente aquilo que estamos a comprar é ainda mais.

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OPINION & MARKET · BUYING

What you should ask before buying in the Algarve — and almost nobody does

Bedrooms, beach distance, pool and airport all matter. But some of the most important questions are the ones buyers only realise they should have asked after the purchase.

People looking for a home in the Algarve usually arrive with a clear list: how many bedrooms, how far from the beach, whether there is a pool, and how long it takes to reach the airport.

Those are perfectly valid questions. But in my experience, they are rarely the questions that make the difference between finding a home you like and making a genuinely sound purchase.

There are other questions, less exciting at first sight, that can prevent much bigger problems later. These are the ones I make a point of bringing into the conversation when I advise a buyer.

1. Does what I am buying actually match the documentation?

Does the property correspond to the approved plans and records? Was that room always there? Is the annex regularised? Is the pool documented? Is the garage legally a garage? Has the property been extended or altered?

Since 2024, presenting a use authorisation is no longer a general requirement at the deed stage in Portugal. That does not make planning compliance irrelevant.

There is also an important difference when bank finance is involved: lenders will normally require sufficient documentation to assess the property’s planning status before granting a mortgage and accepting it as security.

So a property that can legally be transferred without presenting a use licence is not necessarily a property that a bank will finance without further checks.

The better question is not simply “Does it have a use licence?” but: “Does what I am buying correspond to what is legally documented — and, if I need a mortgage, is it financeable in its current condition?”

2. Where does the water come from?

In a central Faro apartment this may never arise. In an isolated villa or rural property, it can be one of the most important questions.

Is there a mains connection? Does the property rely on a borehole? Is there also a cistern? If there is a borehole, is it properly registered and authorised? Is the available supply sufficient for the intended use?

In the Algarve, with long dry periods and increasing pressure on water resources, this should not be treated as a minor detail — particularly where land, gardens, pools, fruit trees or agricultural use are involved.

3. What does it really cost to live here?

This goes far beyond the mortgage payment. If there is a condominium, how much is the fee? What does it include? Is there a reserve fund? Have major works been approved or discussed? Are there extraordinary charges?

It is also worth understanding the condition of common areas and, where possible, reading recent condominium minutes.

The cost of maintaining the property is also part of its price.

4. How long has it been for sale — and what happened during that time?

I always like to understand the property’s market history. How long has it been listed? Has the asking price changed? Have there been offers? And, where the information can appropriately be shared, why has the owner decided to sell?

None of these answers automatically signals a problem. But knowing the context can help you understand the negotiation better. It is not about discovering “how low the seller will go”. It is about understanding the situation in which you are negotiating.

5. What am I not seeing?

When we fall in love with a property, we naturally focus on what we like: the view, the light, the kitchen, the terrace, the life we can imagine there.

A sound purchase also requires looking at the less attractive questions. Are there signs of damp? What is the condition of the roof? How old are the plumbing and electrical systems? Are there cracks that deserve professional assessment? What is the noise like at different times? What happens to access in summer? What could be built on the empty land opposite?

If there is a meaningful technical doubt, asking a qualified professional before committing can cost far less than discovering the problem afterwards.

Buying well requires some emotional distance

There are homes where you walk in and almost immediately think, “This is it.” There is nothing wrong with that. Buying a home is emotional too.

The problem begins when emotion replaces every other question.

Finding a home you love matters. Knowing exactly what you are buying matters even more.

THINKING OF BUYING IN THE ALGARVE?

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