OPINIÃO & MERCADO · ARRENDAMENTO

O CIA já foi regulamentado. O RSAA continua à espera — e esta diferença importa

Uma lei pode estar em vigor e continuar difícil de aplicar na prática. Para proprietários, a diferença entre o que já está operacional e o que ainda aguarda regulamentação é decisiva.

Há algumas semanas escrevi sobre dois novos regimes criados para aumentar a oferta de habitação para arrendamento em Portugal.

O RSAA — Regime Simplificado de Arrendamento Acessível.

E os CIA — Contratos de Investimento para Arrendamento.

Ambos começaram a produzir efeitos a 1 de setembro de 2026.

Mas havia um problema: faltava regulamentação essencial para os transformar em instrumentos plenamente utilizáveis.

Entretanto, uma parte dessa história mudou.

A 30 de setembro foi publicada a portaria que regulamenta os CIA.

O RSAA, porém, continua dependente de regulamentação própria para definir uma das coisas mais importantes do regime:

qual é, afinal, a renda máxima que um senhorio pode cobrar para beneficiar do regime de arrendamento acessível?

E essa diferença já começa a ter consequências práticas.

Primeiro: o que é o RSAA?

O RSAA foi criado para incentivar proprietários a colocar imóveis no mercado de arrendamento a preços abaixo de determinados limites.

A lógica é relativamente simples.

O senhorio aceita praticar uma renda considerada acessível.

Em troca, os rendimentos desse contrato podem beneficiar de isenção de IRS ou IRC, desde que sejam cumpridas as condições previstas no regime.

Para contratos destinados a residência permanente, o prazo mínimo previsto é de três anos.

E a renda máxima deverá ser definida por tipologia, tendo como base 80% da mediana das rendas por metro quadrado do respetivo concelho, podendo ainda ser considerados fatores como eficiência energética ou estacionamento.

É precisamente aqui que surge o problema.

A regra existe. Falta saber o número concreto

É fácil dizer:

“A renda tem de ficar abaixo de 80% da mediana.”

Mas isso ainda não chega para um proprietário tomar uma decisão.

Imagine alguém com um T2 em Olhão.

Ou um T1 em Tavira.

Ou uma moradia em Vila Real de Santo António.

A pergunta prática é:

qual é a renda máxima que posso cobrar neste imóvel e continuar dentro do RSAA?

Essa resposta depende da portaria prevista no próprio regime.

Sem essa tabela ou fórmula regulamentar devidamente operacionalizada, o proprietário conhece o princípio, mas ainda não dispõe de toda a informação necessária para estruturar o contrato com segurança.

E isso é particularmente importante porque o benefício fiscal é relevante

O incentivo não é pequeno.

Os rendimentos prediais provenientes de contratos que cumpram as condições do RSAA ficam isentos de tributação em IRS ou IRC, sem prejuízo das regras aplicáveis em caso de opção pelo englobamento.

Para um proprietário, isso pode alterar significativamente a comparação entre:

arrendamento tradicional;

arrendamento acessível;

Alojamento Local;

ou simplesmente manter o imóvel vazio.

Mas só é possível comparar corretamente quando conhecemos todas as condições concretas.

Por isso, eu teria cuidado antes de assinar um contrato contando com a isenção

Este é, para mim, o ponto mais importante para os proprietários.

Se alguém está a pensar transformar um imóvel de Alojamento Local ou uma segunda habitação num contrato de longa duração especificamente porque espera beneficiar do RSAA, eu não faria contas definitivas antes de confirmar a regulamentação aplicável.

Não porque o regime não exista.

Existe.

Entrou em vigor.

Mas entre uma lei existir e um proprietário conseguir aplicá-la sem margem para dúvidas existe, por vezes, uma diferença importante.

Uma decisão fiscal devia ser tomada com base em regras já operacionais, não numa expectativa sobre aquilo que ainda falta regulamentar.

E o que mudou nos CIA?

Aqui a situação já é diferente.

A Portaria n.º 447-A/2026/1, publicada a 30 de setembro, regulamentou os procedimentos, requisitos e obrigações aplicáveis aos Contratos de Investimento para Arrendamento.

Os CIA destinam-se a investimentos de maior dimensão na aquisição, construção ou reabilitação de edifícios para arrendamento habitacional ou subarrendamento.

A portaria estabelece, entre outras condições, que pelo menos 700/1000 da área total de construção abrangida pelo contrato seja destinada a arrendamento habitacional ou subarrendamento habitacional.

Ou seja:

cerca de 70% da área terá de estar afeta a esse objetivo.

Também ficam agora mais claros os requisitos relativos ao investidor, ao processo de candidatura e às obrigações associadas.

Isto significa que os CIA já estão totalmente resolvidos?

Eu teria cuidado também aqui.

A regulamentação principal foi publicada e isso é um passo importante.

Mas um regime desta natureza envolve procedimentos administrativos, análise de candidaturas e articulação com várias entidades.

Publicar a portaria não significa que amanhã todos os processos estarão concluídos.

Significa, isso sim, que deixou de faltar uma peça regulamentar essencial.

É uma diferença importante.

Então porque é que o RSAA ainda merece atenção?

Porque o RSAA é precisamente o regime que pode interessar a muitos proprietários particulares.

Não estamos a falar apenas de grandes fundos ou promotores.

Estamos a falar de alguém que tem:

um apartamento vazio;

uma casa herdada;

um imóvel que deixou de utilizar;

ou um Alojamento Local que pondera converter para arrendamento de longa duração.

Para essas pessoas, a questão da renda máxima é central.

Sem ela, a conta fica incompleta.

Há ainda um detalhe que vale a pena explicar

O Decreto-Lei n.º 97/2026 determinava que as portarias necessárias fossem aprovadas no prazo de 30 dias após a publicação do diploma, de 20 de maio.

Esse prazo já passou há bastante tempo.

Portanto, isto não é apenas a situação normal de uma lei que aguarda regulamentação durante alguns dias.

Existe efetivamente um atraso face ao calendário previsto no próprio diploma.

Para quem tem um imóvel, qual é então a atitude prudente?

Eu faria três coisas.

Primeiro, perceberia quanto rende hoje o imóvel no mercado normal.

Depois, estimaria qual teria de ser a renda no âmbito do RSAA quando os limites estiverem definidos.

E finalmente compararia:

renda líquida;

fiscalidade;

duração mínima do contrato;

risco;

custos;

e flexibilidade futura.

Só depois tomaria a decisão.

Porque uma isenção fiscal pode ser atrativa.

Mas não deve ser analisada isoladamente.

Também não assumiria que o RSAA será sempre a melhor solução

Imagine dois imóveis semelhantes.

Num deles, a diferença entre a renda de mercado e a renda acessível pode ser pequena.

Nesse caso, o benefício fiscal pode compensar muito bem essa diferença.

Noutro, a diferença pode ser bastante maior.

A conta já pode ser diferente.

É precisamente por isso que precisamos dos valores concretos.

Não basta conhecer a percentagem. É preciso conhecer a renda final.

Este caso ilustra uma coisa que vejo repetidamente

Uma reforma pode estar aprovada.

Pode estar publicada no Diário da República.

Pode até já ter entrado formalmente em vigor.

Mas isso não significa automaticamente que esteja pronta para ser usada em todas as situações.

Há uma fase intermédia.

Regulamentação.

Plataformas.

Procedimentos.

Formulários.

Comunicação entre entidades.

E aplicação prática.

É aí que muitas vezes existe distância entre a política pública anunciada e a experiência concreta de quem tem de tomar uma decisão.

E é essa diferença que interessa a um proprietário

Para quem está a decidir o destino de uma casa, a pergunta não é:

“O regime já foi aprovado?”

A pergunta é:

“Consigo hoje usar este regime com segurança e saber exatamente quais são as minhas obrigações e benefícios?”

Nos CIA, essa resposta ficou muito mais clara com a portaria publicada a 30 de setembro.

No RSAA, ainda falta uma peça essencial.

E enquanto essa peça não chegar, eu evitaria tomar uma decisão patrimonial de vários anos baseada apenas na expectativa do benefício fiscal.

Porque entre uma boa medida no papel e uma boa decisão para um proprietário ainda há uma coisa muito importante:

os detalhes.

Está a ponderar colocar um imóvel em arrendamento de longa duração?

Posso ajudá-lo a comparar as opções do imóvel do ponto de vista imobiliário e de mercado. Para o enquadramento fiscal concreto, a decisão deverá depois ser validada com contabilista ou advogado.

Analisar as opções do imóvel

Fontes

Diário da República — Decreto-Lei n.º 97/2026, que criou os regimes RSAA e CIA.

Diário da República — Portaria n.º 447-A/2026/1, de 30 de setembro, que regulamenta os Contratos de Investimento para Arrendamento.

idealista/news — atualizações sobre a entrada em vigor dos regimes e a regulamentação ainda em falta no RSAA.

Leituras relacionadas

RSAA e CIA: o que muda no arrendamento e porque ainda faltava regulamentação

O que custa, de facto, manter uma casa fechada no Sotavento algarvio

Analisar as opções do seu imóvel →

OPINION & MARKET · RENTAL HOUSING

The CIA is now regulated. The RSAA is still waiting — and that difference matters

A law can be in force and still be difficult to use in practice. For property owners, the difference between what is operational and what still awaits regulation is crucial.

A few weeks ago I wrote about two new schemes designed to increase the supply of rental housing in Portugal.

The RSAA — Simplified Affordable Rental Scheme.

And the CIA — Rental Investment Contracts.

Both took effect on 1 September 2026.

But there was a problem: essential implementing rules were still missing.

Part of that story has now changed.

On 30 September, the regulation governing the CIA was published.

The RSAA, however, still depends on a separate regulation to define one of its most important practical elements:

the maximum rent a landlord may charge while remaining eligible for the affordable-rental tax treatment.

First: what is the RSAA?

The RSAA is intended to encourage landlords to place homes on the long-term rental market at rents below defined limits.

In return, qualifying rental income may benefit from IRS or corporate income tax exemption, provided the scheme's conditions are met.

For permanent-residence contracts, the minimum term is three years.

The maximum rent is intended to be defined by property type, based on 80% of the median rent per square metre in the relevant municipality, with other factors potentially taken into account.

The rule exists. The practical number is still missing

Knowing that the limit is linked to 80% of a median is not enough for an owner deciding what rent to set.

The practical question is:

what is the maximum rent I can charge for this specific property and still qualify?

That answer depends on the implementing regulation.

The tax benefit is significant

Qualifying rental income may be exempt from IRS or corporate income tax, subject to the applicable rules.

That can materially change the comparison between conventional long-term rental, affordable rental, short-term accommodation or leaving the property empty.

I would therefore be cautious before signing a contract based on the expected exemption

If an owner is considering converting a short-term rental or second home into a long-term lease specifically because of the RSAA tax benefit, I would not make the final calculation before the applicable rules are fully operational.

A tax decision should be based on operational rules, not on assumptions about regulation that is still pending.

What changed for the CIA?

The situation is now different.

Ordinance no. 447-A/2026/1, published on 30 September, set out procedures, requirements and obligations for Rental Investment Contracts.

The CIA is aimed at larger investments involving the acquisition, construction or rehabilitation of buildings for residential rental or subletting.

Among other conditions, at least 700/1000 of the total construction area covered by the contract must be allocated to residential rental or subletting.

In simple terms, around 70% of the area must be used for that purpose.

Does that mean the CIA is now completely operational?

The main implementing regulation is now published, which is a major step.

But schemes of this kind still involve administrative procedures, applications and coordination between public bodies.

Publishing the ordinance does not mean every case is processed immediately.

It does mean an essential regulatory gap has been closed.

Why does the RSAA matter so much to private owners?

Because this is the scheme that may be relevant to people who own an empty apartment, an inherited home, a second home or a short-term rental they are considering moving into the long-term rental market.

For those owners, the maximum permitted rent is central to the calculation.

There is also a timing issue

Decree-Law no. 97/2026 provided for the necessary regulations to be approved within 30 days of the decree-law's publication on 20 May.

That deadline has long passed.

So this is not simply a matter of waiting a few days for routine implementation.

What would I do as a property owner?

I would compare the property's normal market rent with the expected RSAA rent once the limits are published.

Then I would compare net income, taxation, minimum contract term, risk, costs and future flexibility.

A tax exemption can be attractive.

But it should not be assessed in isolation.

I would not assume the RSAA is always the best choice either

For one property, the gap between market rent and affordable rent may be small and the tax benefit may compensate well.

For another, that gap may be much larger.

Knowing the percentage is not enough. The final rent matters.

This case illustrates something important

A reform can be approved, published and formally in force without being fully usable in every practical situation.

There is often an intermediate stage: regulations, platforms, forms, procedures, coordination and practical implementation.

That difference is what matters to an owner

The relevant question is not:

“Has the scheme been approved?”

It is:

“Can I use it today with confidence and know exactly what my obligations and benefits are?”

For the CIA, that answer became much clearer on 30 September.

For the RSAA, an essential piece is still missing.

Until it arrives, I would avoid making a multi-year property decision based solely on the expected tax benefit.

Because between a good measure on paper and a good decision for an owner, one thing still matters enormously:

the details.

Considering a long-term rental strategy?

I can help you compare the property's market options. Any final tax position should then be validated with an accountant or lawyer.

Review my property options

Sources

Diário da República — Decree-Law no. 97/2026 creating the RSAA and CIA schemes.

Diário da República — Ordinance no. 447-A/2026/1 of 30 September regulating Rental Investment Contracts.

idealista/news — updates on the schemes taking effect and the RSAA regulation still pending.

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