É uma frase que ouço com frequência:
E percebo perfeitamente de onde vem essa ideia.
Durante muitos anos, quem comprou imobiliário e teve capacidade para esperar acabou, em muitos casos, por ver o valor do imóvel subir.
Isso cria uma sensação de segurança difícil de contrariar.
Mas fazer o meu trabalho com honestidade obriga-me a dizer uma coisa que nem sempre é tão agradável de ouvir:
o imobiliário não é automaticamente um investimento seguro só porque é imobiliário.
Uma casa não se transforma em dinheiro de um dia para o outro
Esta é uma das primeiras coisas que às vezes se esquece.
Se eu precisar hoje do dinheiro que tenho numa casa, não basta carregar num botão e vender.
É preciso encontrar comprador.
Negociar.
Tratar da documentação.
Eventualmente lidar com financiamento.
Marcar escritura.
E tudo isso leva tempo.
Por isso, o imobiliário tem uma característica importante: pouca liquidez.
Não quer dizer que seja mau.
Quer dizer apenas que quem investe deve ter capacidade financeira para não ser obrigado a vender no pior momento possível.
Comprar e vender também custa dinheiro
Outro erro comum é olhar apenas para a diferença entre o preço de compra e o preço de venda.
Comprei por 300 mil.
Vendi por 350 mil.
Ganhei 50 mil.
Nem sempre.
Houve impostos na compra.
Escritura.
Possivelmente financiamento.
Condomínio.
Manutenção.
Obras.
Seguros.
Eventuais comissões.
E, dependendo da situação, tributação na venda.
O resultado verdadeiro está no que sobra depois de tudo isso.
É por isso que uma valorização aparentemente muito boa pode produzir um retorno bastante mais modesto quando fazemos as contas completas.
Também existe o risco de colocar demasiado património numa única casa
Para muitas famílias, comprar um imóvel representa uma parte muito grande do património disponível.
Às vezes quase tudo.
E isso significa colocar muito dinheiro num único ativo, numa única rua, numa única cidade.
Se aquela zona evoluir bem, ótimo.
Se surgir um problema específico naquela localização, naquele prédio ou naquele segmento de mercado, a exposição é grande.
Isto não significa que todas as pessoas devam ter dez investimentos diferentes.
Mas significa que convém perceber quanto do nosso património está dependente de uma única decisão.
O mercado também tem ciclos
Talvez esta seja a parte mais difícil de aceitar depois de vários anos de subida.
Os preços não sobem sempre.
Existem períodos de grande procura.
Existem períodos de estabilidade.
E existem períodos em que vender demora mais e em que os compradores têm maior margem para negociar.
Quem não precisa de vender pode simplesmente esperar.
Quem comprou demasiado esticado financeiramente talvez não tenha essa opção.
E, para mim, esta diferença é enorme.
Então o imobiliário é um mau investimento?
De maneira nenhuma.
Pode ser um excelente investimento.
Mas um bom investimento imobiliário, para mim, não começa na frase:
Começa por perguntas muito menos emocionantes.
Quanto tempo consigo manter este imóvel?
O que acontece se ficar alguns meses sem rendimento?
Se precisar de vender, existe procura para este tipo de produto?
Estou a comprar a um preço razoável?
A rentabilidade que estou a projetar é líquida ou apenas uma conta bonita sobre a receita bruta?
Estou dependente de o mercado continuar a subir para o negócio fazer sentido?
Estas perguntas não tornam o investimento menos interessante.
Tornam-no mais consciente.
A localização continua a ser importante — mas não resolve tudo
Um bom imóvel numa boa localização terá normalmente vantagens.
Mais procura.
Maior facilidade de revenda.
Maior capacidade para resistir a períodos mais fracos.
Mas nem a melhor localização do mundo transforma automaticamente qualquer compra num bom negócio.
O preço de entrada também conta.
Comprar bem continua a fazer diferença.
Às vezes um excelente imóvel pode ser um mau investimento simplesmente porque foi comprado caro demais.
A segurança também depende de quem compra
Há outra coisa que considero importante.
O mesmo imóvel pode ser relativamente seguro para uma pessoa e demasiado arriscado para outra.
Imagine alguém que compra sem financiamento e pode manter o imóvel durante quinze anos.
Agora compare com alguém que utiliza praticamente todas as poupanças na entrada, assume uma prestação elevada e precisa que o imóvel comece imediatamente a gerar rendimento.
O imóvel pode ser exatamente o mesmo.
O risco não é.
É por isso que não gosto de avaliar investimentos sem conhecer minimamente a situação de quem está a investir.
O meu papel não é dizer que “não há como perder”
Às vezes seria mais fácil.
Um cliente gosta de um imóvel.
A conta parece funcionar.
E é tentador dizer:
“Imobiliário é seguro. Vai valorizar.”
Mas eu não sei isso.
Ninguém sabe.
O que consigo fazer é analisar aquilo que conhecemos hoje.
O preço.
A localização.
A procura.
A oferta.
A rentabilidade.
Os custos.
A facilidade de revenda.
E o horizonte de quem compra.
Depois disso, podemos dizer se a decisão parece sólida.
É muito diferente de prometer que não existe risco.
Prefiro um investimento que continue a fazer sentido se o mercado não ajudar
Esta é provavelmente a regra de que mais gosto.
Se o mercado subir muito, ótimo.
Mas eu prefiro que um investimento já faça sentido antes dessa subida.
Que a rentabilidade seja razoável.
Que o preço não esteja completamente fora do mercado.
Que exista procura real.
Que o comprador consiga manter o ativo.
E que haja uma estratégia de saída.
Assim, a valorização futura passa a ser uma vantagem.
Não uma condição para o investimento resultar.
No fim, “seguro” talvez não seja a palavra certa
O imobiliário tem características que o tornam muito atrativo.
É um ativo físico.
Pode produzir rendimento.
Pode ser utilizado.
Pode proteger património durante períodos longos.
E historicamente tem sido uma parte importante da criação de riqueza de muitas famílias.
Mas não é imune a risco.
E acho que tratar os compradores como adultos também passa por dizer isso.
O meu papel, quando falo com alguém que quer investir, não é confirmar aquilo que essa pessoa gostaria de ouvir.
É ajudá-la a perceber aquilo que está realmente a comprar.
Mesmo quando isso significa dizer:
Prefiro isso.
Porque prefiro um cliente que toma uma decisão com os pés assentes na realidade a alguém que, mais tarde, descobre que confundiu um ativo sólido com uma garantia que nunca existiu.
Está a analisar um imóvel como investimento?
Posso ajudá-lo a olhar para a decisão de forma completa: preço de entrada, procura, rentabilidade, custos, liquidez e estratégia de saída.
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