OPINIÃO & MERCADO · HABITAÇÃO

No Algarve, quem precisa de casa está a competir com quem não precisa de viver cá

Um estudo do Banco de Portugal mostra que a procura de habitação no Algarve é particularmente influenciada pelo turismo, compradores estrangeiros, segundas habitações e investimento. Isso ajuda a explicar porque os preços podem afastar-se tanto dos rendimentos locais.

Esta semana li um estudo do Banco de Portugal que pôs números numa coisa que vejo constantemente no mercado.

Duas pessoas podem estar interessadas exatamente na mesma casa.

Mas podem estar a comprá-la por razões completamente diferentes.

Uma precisa dela para viver.

Outra quer uma segunda habitação.

Outra está a investir.

Outra pode nem viver em Portugal.

E isto importa porque, no Algarve, essa procura que vem de fora da necessidade habitacional dos residentes tem um peso particularmente relevante.

O que estudou o Banco de Portugal?

O trabalho é de João Amador, economista do Banco de Portugal, e analisa os municípios portugueses entre 2017 e 2024.

A pergunta, simplificando bastante, é esta:

quando a procura por habitação aumenta, o que acontece aos preços e às rendas — e quanto depende isso da capacidade de aparecerem mais casas?

A conclusão é intuitiva, mas importante.

Quanto menos a oferta reage, maior é o impacto da procura nos preços.

No cenário extremo usado no estudo, em que a oferta não reage de todo, um aumento de 1% na procura está associado a cerca de 0,69% de subida nos preços e 0,37% nas rendas.

Estes valores não são uma previsão específica para o Algarve.

Servem para mostrar como uma oferta rígida amplifica o efeito da procura.

E o Algarve aparece como um caso particular

Esta foi a parte que mais me interessou.

O próprio estudo trata o Algarve de forma específica porque aqui a procura não depende apenas da formação de novos agregados familiares residentes.

É também influenciada, de forma desproporcionada, por turismo, compradores estrangeiros, segundas habitações e investimento.

E é aqui que a teoria começa a parecer muito próxima da realidade.

Quando uma família de Olhão, Tavira ou Vila Real de Santo António procura uma casa para viver, não está apenas a competir com outra família na mesma situação.

Pode estar a competir com alguém que quer uma segunda residência, com um comprador estrangeiro, com alguém que procura rendimento ou com capital que não depende do salário médio daquele concelho.

É por isso que às vezes os preços parecem desligados dos salários locais

Esta é uma frase que ouço muitas vezes:

“Mas quem é que ganha dinheiro para pagar estas casas?”

E a pergunta faz todo o sentido.

O problema é que o preço de uma casa no Algarve não está a ser formado apenas por quem vive e trabalha cá.

É formado por todos os compradores que estão dispostos e conseguem comprar naquele mercado.

E esses compradores podem ter rendimentos, património e objetivos completamente diferentes.

Isso não significa que “os estrangeiros compram tudo”.

Nem que todos os imóveis sejam investimento.

Significa apenas que olhar para o salário médio local não chega para explicar os preços.

E quando aparecem mais compradores mas não aparecem mais casas?

É aqui que entra a segunda parte do problema.

Se a procura aumenta e a oferta consegue responder, parte dessa pressão é absorvida por novas casas.

Se a procura aumenta e a oferta quase não reage, o ajuste faz-se sobretudo pelo preço.

É por isso que aumentar apenas a capacidade de compra das famílias tem limites.

Medidas como o IMT Jovem ou a Garantia Pública podem ajudar pessoas concretas.

E ajudam.

Mas não criam casas.

Se colocarmos mais compradores em condições de avançar e o número de imóveis disponíveis continuar praticamente igual, a pressão continua lá.

Para quem compra para viver, o que muda?

Na prática, uma coisa sobretudo:

preparação.

Não acho que alguém deva comprar por medo.

Nem entrar numa casa à pressa porque “alguém vem de fora comprá-la”.

Mas acho que deve chegar ao mercado sabendo quanto pode gastar, quanto o banco financia, que custos terá, o que é essencial e em que pode ceder.

Porque quem ainda está a descobrir isto tudo depois de encontrar a casa certa parte em desvantagem perante quem já tem a decisão preparada.

Para quem vende, o estudo também ajuda a explicar uma coisa

Um imóvel no Algarve não deve ser avaliado apenas pela capacidade financeira de quem vive naquela rua ou naquele concelho.

O universo de compradores pode ser muito maior.

Isso não significa que os preços vão subir sempre.

Não significa que qualquer casa se venda por qualquer valor.

E não significa que turismo ou procura internacional sejam permanentes.

Mas ajuda a perceber porque certos mercados continuam a mostrar preços difíceis de explicar apenas através dos rendimentos locais.

E para investidores?

Aqui eu teria cuidado com a palavra “garantia”.

O estudo não diz que o Algarve vai continuar a valorizar.

Diz algo diferente:

quando a oferta reage pouco, alterações da procura tendem a ter um efeito maior nos preços.

Isso pode ser positivo enquanto a procura se mantiver forte.

Mas significa também que quem investe deve perceber muito bem de onde vem essa procura.

Turismo, compradores internacionais, taxas de juro, fiscalidade, regras de residência e confiança: tudo isso conta.

Talvez esta seja a parte mais importante

Durante muito tempo, a discussão da habitação foi feita assim:

faltam casas;

os preços subiram;

é preciso ajudar as pessoas a comprar.

Mas há uma pergunta anterior:

quem está a comprar as casas que existem?

No Algarve, essa pergunta é especialmente importante.

Porque uma casa pode ser, ao mesmo tempo, habitação permanente, segunda residência, produto turístico ou ativo de investimento.

E todas essas utilizações disputam o mesmo stock.

É por isso que, quando alguém me diz:

“Eu trabalho aqui. Ganho aqui. Como é possível não conseguir comprar aqui?”

a resposta não está apenas no salário dessa pessoa.

Está também no facto de estar a competir num mercado muito maior do que o mercado de trabalho local.

Quem precisa de uma casa para viver está a competir com quem olha para essa mesma casa como segunda residência, investimento ou ativo turístico.

E enquanto a oferta continuar a responder devagar, essa diferença vai continuar a pesar.

Está a tentar comprar casa para viver no Algarve?

Posso ajudá-lo a preparar a compra antes de encontrar o imóvel certo: orçamento, financiamento, critérios essenciais e leitura realista do mercado onde está a procurar.

Falar comigo sobre a compra

Fontes

Banco de Portugal — João Amador, The dynamics of housing prices and rents in Portugal: a market equilibrium approach, Revista de Estudos Económicos, outubro de 2026.

Barlavento — “Oferta limitada de habitação no Algarve agrava pressão da procura sobre preços e rendas”, 17 de outubro de 2026.

Observador / Lusa — “Crise da habitação não se resolve com políticas ‘do lado da procura’”, 16 de outubro de 2026.

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OPINION & MARKET · HOUSING

In the Algarve, people who need a home are competing with people who do not need to live here

A Banco de Portugal study shows that housing demand in the Algarve is particularly influenced by tourism, foreign buyers, second homes and investment. That helps explain why prices can move so far away from local incomes.

This week I read a Banco de Portugal study that puts numbers on something I see constantly in the market.

Two people can be interested in exactly the same property while buying it for completely different reasons.

One needs a home to live in. Another wants a second home. Another is investing. Another may not even live in Portugal.

That matters because, in the Algarve, demand from outside the normal housing needs of resident households plays a particularly important role.

What did the Banco de Portugal study?

The study is by João Amador, an economist at Banco de Portugal, and analyses Portuguese municipalities between 2017 and 2024.

When housing demand increases, what happens to prices and rents — and how much does that depend on the ability of supply to respond?

In the study's extreme scenario, where supply does not respond at all, a 1% increase in demand is associated with around a 0.69% increase in prices and 0.37% in rents.

These figures are not a forecast specifically for the Algarve. They illustrate how rigid supply amplifies demand pressures.

The Algarve appears as a particular case

The study treats the Algarve separately because demand here is not driven only by the creation of new resident households.

It is also disproportionately influenced by tourism, foreign buyers, second homes and investment.

That means a household looking for a permanent home may be competing with buyers whose income and objectives have little to do with local wages.

Why prices can look disconnected from local incomes

“Who actually earns enough to pay these prices?”

Algarve property prices are not set only by people who live and work locally.

They are influenced by everyone who is willing and able to buy in that market.

This does not mean foreign buyers purchase everything or that every property is an investment. It means local wages alone are not enough to explain prices.

What happens when more buyers appear but more homes do not?

If demand rises and supply can respond, some of that pressure is absorbed by additional housing.

If demand rises and supply barely reacts, more of the adjustment happens through prices.

Helping more people to buy can support individual households, but it does not create new homes.

What does this mean for resident buyers?

Mostly one thing: preparation.

Buyers should know their budget, financing, total costs, essential criteria and where they can compromise before the right property appears.

That is not about buying out of fear. It is about being ready to decide when a genuinely suitable property comes to market.

And for sellers?

A property in the Algarve should not be assessed only through the purchasing power of people living in the immediate area.

The pool of potential buyers can be much wider.

That does not mean prices will rise forever or that any property can sell at any price. It simply helps explain why some markets are difficult to understand through local incomes alone.

And for investors?

The study is not a guarantee of future appreciation.

It shows that when supply reacts slowly, changes in demand tend to have a larger effect on prices.

That also means investors need to understand where demand comes from: tourism, international buyers, interest rates, taxation, residency rules and confidence all matter.

The most important question may come before everything else

Who is buying the homes that already exist?

In the Algarve, the same property can be a permanent home, second residence, tourism product or investment asset.

All of those uses compete for the same stock.

People who need a home to live in are competing with people who see that same property as a second home, an investment or a tourism asset.

Trying to buy a home to live in the Algarve?

I can help you prepare before the right property appears: budget, financing, essential criteria and a realistic reading of the market.