OPINIÃO & MERCADO · ALOJAMENTO LOCAL

Alojamento local: o mesmo país pode precisar de regras diferentes

A discussão sobre alojamento local está a tornar-se mais territorial. E isso faz sentido: limitar onde há pressão pode ser tão importante como permitir recuperação e atividade onde o problema é o abandono.

Esta semana realizou-se, no Porto, a 1.ª Cimeira Nacional do Alojamento Local.

E houve uma ideia que me pareceu particularmente importante.

Não porque tenha sido dita sobre o Algarve.

Mas precisamente porque se aplica muito bem à realidade que temos aqui.

O presidente da CCDR-Norte — Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, Álvaro Santos, defendeu que o alojamento local não deve ser analisado isoladamente da habitação, do turismo, da reabilitação urbana e da coesão territorial.

A CCDR é, de forma simples, uma entidade pública regional que acompanha matérias como desenvolvimento regional, ordenamento do território, fundos europeus e articulação de políticas públicas.

E deixou uma ideia que, para mim, resume bem o problema:

Portugal não tem um único mercado de habitação. Nem um único mercado turístico.

Há zonas onde a pressão sobre a habitação é real e precisa de ser gerida.

E há outras onde o problema é precisamente o contrário: casas vazias, pouca população, pouca atividade económica e património degradado.

É aqui que a discussão fica interessante.

O alojamento local não tem o mesmo efeito em todo o lado

Num centro urbano ou numa zona muito procurada, transformar sucessivamente habitações em alojamento turístico pode reduzir a oferta disponível para residentes.

Mas numa aldeia do interior, uma casa vazia há anos pode não estar a competir com ninguém.

Pode estar simplesmente abandonada.

E, nesses casos, a recuperação para alojamento local pode significar investimento, obras, consumo local e utilização de um imóvel que de outra forma continuaria fechado.

Foi precisamente este contraste que Álvaro Santos destacou na cimeira: há territórios onde é necessário gerir pressões e outros onde é preciso criar atividade, recuperar casas, atrair investimento e trazer pessoas.

Não significa que o alojamento local seja sempre a solução.

Nem que nunca cause problemas.

Significa apenas que aplicar a mesma regra a realidades muito diferentes pode produzir resultados igualmente diferentes.

E a lei já permite esta diferenciação

Esta parte é importante porque não estamos a falar apenas de uma ideia para o futuro.

O atual regime jurídico do alojamento local já permite aos municípios criar áreas de contenção e áreas de crescimento sustentável.

Explicando de forma simples:

uma área de contenção é uma zona onde existe uma concentração elevada de alojamento local e o município entende que pode ser necessário limitar ou condicionar novos registos;

uma área de crescimento sustentável é uma zona que ainda não chegou necessariamente a esse nível de pressão, mas que passa a ser acompanhada e monitorizada para evitar uma sobrecarga futura.

Estas áreas podem ser definidas por freguesia, parte de freguesia ou união de freguesias, através de regulamento municipal.

Ou seja:

a legislação já admite que duas zonas do mesmo concelho tenham regras diferentes.

E, para mim, isso faz mais sentido do que tratar todo um município — ou todo o Algarve — como se fosse uma única realidade.

E é aqui que o Sotavento me parece um bom exemplo

O Sotavento não é um território uniforme.

Tem zonas costeiras e urbanas com forte procura turística e residencial.

E tem, ao mesmo tempo, zonas interiores onde o problema pode ser exatamente o oposto: menor procura, perda de população e património sem utilização.

Por isso, quando se fala em “política para o alojamento local”, eu tenho alguma dificuldade em imaginar uma resposta única para realidades tão diferentes.

Uma regra pensada para uma zona muito pressionada pode fazer sentido aí.

Mas aplicada a uma zona do interior pode retirar um dos poucos incentivos existentes para recuperar um imóvel.

E o contrário também é verdade.

Facilitar indiscriminadamente o alojamento local numa zona onde a habitação permanente já é escassa também pode agravar um problema existente.

É por isso que a diferenciação territorial me parece mais sensata do que uma resposta igual para todos.

E o que é afinal o Livro Branco do Alojamento Local?

Na mesma cimeira foi anunciado o primeiro Livro Branco do Alojamento Local em Portugal.

O nome pode soar mais oficial do que realmente é, por isso vale a pena explicar.

Um Livro Branco é, neste contexto, um documento de estudo e reflexão.

Serve para reunir dados, opiniões, problemas identificados e propostas sobre um determinado setor.

Não é uma lei.

Não cria regras por si só.

E também não é, neste caso, um documento do Governo.

É uma iniciativa da Associação de Alojamento Local do Porto e Norte, que será coordenada pelo economista e ex-ministro da Economia Manuel Caldeira Cabral.

Estão a ser recolhidos contributos de especialistas, instituições, universidades e outros participantes até ao final de 2026.

A publicação está prevista para o segundo trimestre de 2027.

Na prática, o objetivo é estudar melhor o setor antes de defender novas políticas públicas.

E acho que isso é importante.

Porque o debate sobre alojamento local tem sido muitas vezes reduzido a duas posições:

“é preciso limitar”

ou

“é preciso deixar funcionar”.

Na realidade, o problema é bastante mais complexo.

Então este Livro Branco vai mudar as regras?

Não necessariamente.

O Livro Branco poderá apresentar conclusões e recomendações.

Essas conclusões podem vir a ser consideradas por municípios, associações, Governo ou outros decisores.

Mas não têm força de lei.

Por isso, eu não leria este anúncio como sinal de que estão já a caminho novas restrições ao alojamento local.

O que existe é uma discussão mais estruturada sobre o futuro do setor.

E uma das ideias que está claramente a ganhar espaço é esta:

nem todos os territórios precisam da mesma resposta.

E o que deve fazer alguém que está a pensar investir?

Para mim, há três perguntas que hoje fazem mais sentido do que perguntar apenas se “o AL dá rentabilidade”.

Primeiro:

qual é a realidade concreta daquele concelho e daquela zona?

Segundo:

existem regras municipais específicas ou alguma área de contenção ou crescimento sustentável?

Terceiro:

o investimento continua a fazer sentido se as regras mudarem?

Esta última é particularmente importante.

Um investimento imobiliário não devia depender de uma única condição regulatória permanecer exatamente igual durante dez ou quinze anos.

Se só funciona enquanto todas as regras se mantiverem como estão hoje, talvez o risco esteja a ser subestimado.

E para quem tem uma casa antiga no interior?

A análise pode ser completamente diferente.

Antes de pensar em alojamento local, eu começaria por perceber:

o imóvel está legalizado?

qual é o uso autorizado?

que obras são necessárias?

há procura turística real naquela zona?

e existem outras utilizações possíveis?

Às vezes recuperar para alojamento local pode fazer sentido.

Outras vezes não.

O importante é não começar uma obra partindo do princípio de que o registo turístico resolverá automaticamente a rentabilidade do imóvel.

O que retiro desta cimeira?

Sobretudo isto:

a discussão sobre alojamento local está a tornar-se mais territorial.

E acho que isso é positivo.

Porque uma rua no centro de uma cidade turística e uma casa vazia numa aldeia do interior podem estar no mesmo país, mas não têm necessariamente o mesmo problema.

Nem precisam obrigatoriamente da mesma solução.

Talvez a pergunta mais útil já não seja:

“Devemos limitar ou incentivar o alojamento local?”

Talvez seja:

“Onde é que faz sentido limitar e onde é que faz sentido incentivar?”

É uma pergunta mais difícil.

Mas provavelmente é também a que pode produzir melhores políticas.

Está a avaliar um imóvel para alojamento local?

Posso ajudá-lo a analisar a localização, o tipo de imóvel, a procura e o enquadramento imobiliário antes de tomar uma decisão. As regras específicas de registo e funcionamento devem ser confirmadas junto do respetivo município para cada caso concreto.

Falar comigo

Fontes

idealista/news / Lusa — “Alojamento Local deve ter políticas adaptadas aos territórios”, 8 de outubro de 2026.

idealista/news / Lusa — “Primeiro Livro Branco do AL coordenado por ex-ministro Caldeira Cabral”, 8 de outubro de 2026.

Diário da República — Regime jurídico da exploração dos estabelecimentos de alojamento local, artigo 15.º-A, sobre áreas de contenção e áreas de crescimento sustentável.

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OPINION & MARKET · SHORT-TERM RENTALS

Short-term rentals: the same country may need different rules

The short-term rental debate is becoming more territorial. That makes sense: limiting activity where housing pressure is high can be as important as enabling recovery and investment where the problem is abandonment.

This week, Porto hosted Portugal's first National Short-Term Rental Summit.

One idea stood out to me.

Not because it was specifically about the Algarve, but because it applies very well to the reality we have here.

Álvaro Santos, president of CCDR-Norte — the Northern Regional Coordination and Development Commission, argued that short-term rentals should not be discussed separately from housing, tourism, urban rehabilitation and territorial cohesion.

A CCDR is, in simple terms, a public regional body that coordinates matters such as regional development, spatial planning, European funding and public policy.

Portugal does not have one single housing market, or one single tourism market.

Short-term rentals do not have the same effect everywhere

In a highly demanded urban area, converting homes into tourist accommodation can reduce supply for residents.

In a low-density inland village, however, a house that has been empty for years may simply be abandoned rather than competing with local residents.

In that setting, short-term rental can sometimes help support rehabilitation, investment and local activity.

The law already allows territorial differentiation

Portugal's current short-term rental framework allows municipalities to create containment areas and sustainable growth areas.

A containment area is a place where the concentration of short-term rentals may justify restrictions on new registrations.

A sustainable growth area is monitored more closely to prevent future overload.

The law therefore already allows different parts of the same municipality to have different rules.

Why the eastern Algarve is a useful example

The eastern Algarve is not one uniform market.

It combines coastal and urban areas with strong tourism and residential demand with inland areas facing very different issues, including lower demand, depopulation and unused property.

That is why a single short-term rental policy does not always make sense.

What is the Short-Term Rental White Paper?

The summit also announced Portugal's first Short-Term Rental White Paper.

A White Paper is, in this context, a study and discussion document.

It brings together data, identified problems, different viewpoints and policy proposals.

It is not a law and it does not create rules by itself.

It is also not a Government document.

This initiative comes from the Porto and North Short-Term Rental Association and will be coordinated by economist and former Economy Minister Manuel Caldeira Cabral.

Contributions are being collected until the end of 2026, with publication expected in the second quarter of 2027.

In practical terms, the aim is to understand the sector better before proposing better public policies.

Will the White Paper change the rules?

Not necessarily.

It may produce conclusions and recommendations that public authorities later choose to consider, but it has no legal force of its own.

What should an investor ask?

Three questions matter more than simply asking whether short-term rental is profitable:

What is the reality of this municipality and this specific area?

Are there local rules, containment areas or sustainable growth areas?

Does the investment still work if regulation changes?

And what about an old inland property?

The analysis can be very different.

Before assuming short-term rental is the answer, check the property's legal status, permitted use, required works, real tourism demand and alternative uses.

What do I take from this summit?

The short-term rental debate is becoming more territorial.

That is positive.

A street in a highly visited city centre and an empty house in an inland village may be in the same country, but they do not necessarily have the same problem.

The better question may be: where does it make sense to restrict, and where does it make sense to encourage?

Considering a property for short-term rental?

I can help you assess the location, property type, demand and property-market context before making a decision. Specific registration and operating rules should always be confirmed with the relevant municipality.

Talk to me

Sources

idealista/news / Lusa — report on territorially adapted short-term rental policies, 8 October 2026.

idealista/news / Lusa — report on Portugal's first Short-Term Rental White Paper, 8 October 2026.

Diário da República — Portuguese short-term rental legal framework, Article 15-A on containment and sustainable growth areas.

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